Energia bate recorde de consumo e preço

Luiz Gonzaga Bertelli, Jornal do Brasil

RIO - A demanda por eletricidade no Brasil vem batendo sucessivos recordes históricos, superando na média 71 mil megawatts (MW), no horário de ponta, devido às altíssimas temperaturas climáticas.

Disparou o uso de aparelhos de ar condicionado, televisores, micro-ondas e ventiladores funcionando durante o dia e à noite.

Mais de 90 milhões de brasileiros estão sendo incorporados ao mercado consumidor, consoante a Fundação Getulio Vargas (FGV).

Contribuiu, também, para essa aceleração, o retorno da atividade industrial aos níveis anteriores à crise econômica que eclodiu em outubro de 2008.

A fim de evitar a sobrecarga operacional da usina de Itaipu, que continua gerando com restrições, estão sendo ativadas térmicas movidas a gás natural, óleo diesel, carvão mineral e óleo combustível, muito mais caras e poluentes, no sentido de evitar apagões.

O volume produzido pelas térmicas custará perto de R$ 8 bilhões aos cofres do tesouro nacional.

No próximo quinquênio, a expansão da oferta será termoelétrica.

Novamente, estão sendo desprezadas a construção de novas hidroelétricas e as térmicas movidas a biomassa (bagaço da cana), mais competitivas e ecológicas.

Com um potencial hidroelétrico que deve nos atender, durante as próximas décadas, e com custos energéticos mais baratos, não deveriam construir termoelétricas no sistema interligado.

Ademais, são inúmeras as vantagens da complementaridade da eletricidade, produzida da biomassa, destacando-se a proximidade das indústrias sucroalcooleiras aos centros de carga, interligando com baixo custo e risco a produção e o consumo.

E deve-se lembrar também que a bioeletricidade da biomassa (bagaço) reduz as emissões de gases do efeito estufa (GEE) quando comparada às fontes fósseis, além de menor complexidade na aprovação das licenças ambientais.

Cerca de 15 mil megawatts de eletricidade do bagaço poderiam ser incorporados rapidamente à oferta, sem a necessidade da ligação de térmicas de combustíveis fósseis, contribuindo, desta forma, para o estabelecimento de uma matriz energética mais limpa e econômica.

A prioridade à construção das hidroelétricas foi preterida diante da pressão dos ecologistas.

Com os reservatórios das usinas hidroelétricas cheios, não existe, atualmente, o risco do desabastecimento doméstico e industrial. Sem dúvida, é a melhor condição do sistema elétrico brasileiro dos últimos 10 anos.

No Sudeste e Centro-Oeste brasileiro os tanques das usinas hidroelétricas têm na média 80% de água armazenada da sua capacidade nominal, em decorrência das copiosas chuvas dos últimos quatro meses.

Desta forma, existirá sobra de eletricidade até os próximos cinco anos e a fim de atender às necessidades do crescimento previsto do Produto Interno Bruto (PIB) do país de 6% em 2010.

A oferta abundante de eletricidade não tem afastado, no entanto, os constantes cortes de abastecimento no Rio de Janeiro e na capital do estado paulista.

As concessionárias de distribuição culpam as intensas tempestades havidas e as dificuldades de acesso, a fim de alcançar as áreas, onde se tornam indispensáveis os reparos na rede.

Mesmo com o excesso de oferta, a eletricidade continua cara, tendo crescido muito mais que a inflação.

No passado recente, tivemos as tarifas elétricas mais baixas do mundo. Nos dias atuais, é uma das mais caras do planeta, e as tarifas recolhem em torno de 50% do seus valor na forma de tributos, descarregados na conta do consumidor doméstico.

Estudos acadêmicos atribuem, ainda, à falta de planejamento governamental e também a investimentos insuficientes em operação e manutenção os atuais apagões, que atormentam os usuários cariocas e paulistas neste verão.

Mesmo com excesso de oferta, a eletricidade continua cara e sobe bem acima da inflação.

Luiz Gonzaga Bertelli é presidente executivo do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE).