Alerta depois do otimismo

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Um dos cartões-postais mais conhecidos do Rio de Janeiro, a Lagoa Rodrigo de Freitas vinha sendo elogiada pela recuperação por que passou nos últimos anos. A água estava mais limpa, em níveis quase apropriados para banho, diziam autoridades e especialistas, algo inimaginável tempos atrás. A cada dia, viam-se mais pescadores jogando suas redes e tendo a coragem de entrar no espelho d'água, que não mais reflete apenas algo belo de longe, porém ordinário, sujo, mal cheiroso de perto. Era uma boa notícia difícil de acreditar. Afinal, a poluição, a qualidade no meio ambiente parecem sempre piorar, apesar de o mundo nunca ter tido tantos debates, fóruns e projetos empresariais ligados à ecologia e à sustentabilidade. Mas a Lagoa, de fato, surpreendeu com seu renascimento.

O clima de otimismo, no entanto, foi quebrado desde que uma quantidade espetacular de peixes mortos 86 mil quilos, segundo a Companhia de Limpeza Urbana (Comlurb) apareceu boiando na Lagoa nos últimos dias. A causa da mortandade ainda está sendo averiguada. Um dos problemas crônicos da Lagoa, após décadas de despejo de esgoto e resíduos, é seu fundo, com matéria orgânica apodrecida, que exala gases tóxicos e consome muito oxigênio quando sobe à superfície em virtude de ventanias e frentes frias, como a que chegou à cidade. Com menos oxigênio, os peixes morrem asfixiados.

Técnicos dos governos municipal e estadual e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no entanto, afirmam que não houve falta de oxigênio. Um peixe precisa de, no mínimo, 2,5 miligramas de oxigênio por litro para sobreviver. E, segundo o Instituto Estadual de Ambiente (Inea), os índices na Lagoa estavam acima desse patamar e registraram no dia entre 6 e 7 mg/l na superfície e entre 3,2 e 3,7 mg/l no fundo. A suspeita recai sobre uma espécie ainda não identificada de alga que teria proliferado, num fenômeno chamado de floração. O aumento do número de nutrientes em razão da mudança de temperatura e da elevação de material orgânico devido a chuva e esgoto teria favorecido a superpopulação deste tipo de alga, num número até oito vezes maior do que a média. Como os níveis de oxigenação da água estavam normais, a hipótese é que as algas atípicas liberaram alguma substância que teria bloqueado a respiração dos peixes. Especialistas tentam agora identificar, entre milhares existentes, que espécie exatamente provocou a mortandade.

O diagnóstico abre margem para que o desastre ambiental tenha sido obra do acaso, do azar, já que o tipo de alga, em princípio, jamais foi encontrado na Lagoa. Mas será? Não parece ser o caso. A recuperação da Lagoa Rodrigo de Freitas, não obstante os avanços obtidos, está longe de concluída. A construção de uma galeria de cintura pela Companhia de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) ajudou a amenizar o problema da emissão de esgoto, mas os despejos clandestinos ligações piratas já chegaram a mais de 300 sempre são um fantasma. O projeto patrocinado pelo empresário Eike Batista, em boa parte responsável pelo renascimento da Lagoa, com orçamento de R$ 30 milhões, é muito bem-vindo. A instalação de dutos para o mar, pelo Canal do Jardim de Alah, para melhorar a renovação da água, é uma obra necessária. Já os benefícios da dragagem do fundo da Lagoa não são certos. Tentativas anteriores resultaram em mortes de peixes. Todo cuidado é pouco ao se mexer no coração de água do Rio.