2016 é amanhã

Marcus Quintella, Jornal do Brasil

RIO - Estou bastante preocupado com a infraestrutura de transporte público do Rio de Janeiro para os Jogos Olímpicos de 2016, visto que estão faltando menos de sete anos e os projetos ainda estão sendo discutidos, e obra alguma foi licitada ou contratada. Em 2004, quando faltavam três anos para o Pan, a mídia carioca mostrou reportagens com as promessas de conclusão das obras da Linha 4 e do Trans-Pan, respectivamente, os trechos Barra Botafogo e Barra aeroportos, e nada ficou pronto. Naquela época, a situação do trânsito e do transporte público na região metropolitana do Rio, principalmente na Barra, já era considerada gravíssima e havia expectativas pessimistas para o futuro do nosso trânsito. Felizmente, não houve grandes problemas no trânsito durante o Pan 2007, até porque esse evento não despertou grande interesse da população carioca, nem trouxe para a cidade um grande número de turistas domésticos e estrangeiros.

No caso da Olimpíada de 2016, que não pode ser comparada ao Pan em grandiosidade, importância e apelo turístico, os problemas de trânsito e transporte público poderão roubar a cena e manchar a beleza dessa festa tão desejada e esperada por todos nós. Não gostaria de assistir aos mesmos erros cometidos no Pan, que não deixou legado algum em transporte público para o Rio. Os Jogos Olímpicos de 2016 devem ser encarados como uma chance ímpar de proporcionar aos cidadãos cariocas uma quantidade significativa de benefícios duradouros, decorrentes de um transporte público integrado e abrangente. Os poderes públicos envolvidos deveriam se preocupar em construir um legado duradouro para o Rio, tal qual o deixado por Barcelona, em 1992, que, até hoje, é motivo de orgulho e felicidade para os catalães.

Penso que a construção de uma grande rede integrada de transporte público seja a melhor solução para o Rio, composta de metrô, trem, BRT, monorrail, ônibus, barcas etc, desde que favoreça positivamente toda a população da região metropolitana. As distâncias a serem percorridas pelos usuários dessa rede não devem ser medidas em quilômetros, mas em tempo de viagem, ou seja, em minutos ou horas, visto que os usuários não mais suportam perder tanto tempo em congestionamentos, em estações de transferências, plataformas e pontos de ônibus.

O conceito de integração de transporte público significa que os modos ferroviário, rodoviário e aquático devem operar como uma entidade única e contínua, em termos operacionais e tarifários, com o objetivo principal de levar o passageiro de porta a porta, de forma rápida, segura, confortável e econômica. Sem dúvida alguma, a integração do transporte público do Rio não poderá fugir de uma espinha dorsal formada pelas linhas 3, 4 e 6 do metrô, respectivamente, Centro São Gonçalo, Centro Barra e Barra Penha Galeão, além das atuais linhas 1 e 2.

Não acredito que todas as obras necessárias possam ser concretizadas até 2016, visto que ainda não existem os projetos básicos e licenças ambientais da maioria dos projetos e, por conseguinte, as licitações não foram colocadas nas ruas. Cabe lembrar que qualquer projeto básico pode levar até um ano para ficar pronto e qualquer licitação, dentro da Lei 8.666/93, demora entre quatro e oito meses, dependendo da quantidade de impugnações, recursos administrativos e ações judiciais, expedientes muito comuns em obras públicas dessa natureza. Depois disso, temos que contar com os tempos de execução dos projetos executivos e das obras propriamente ditas, que, por sua vez, dependerão de recursos financeiros contínuos, apoio político irrestrito e gerenciamento eminentemente técnico, imparcial e comprometido com o sucesso dos Jogos Olímpicos.

Em última análise, acho que estamos em xeque, e as decisões precisam ser tomadas ainda neste primeiro semestre, sob pena de apresentarmos para 2016 apenas obras paliativas ou um esquema de trânsito especial para diminuir os engarrafamentos, deixando de lado os grandes projetos de infraestrutura de transporte, que seriam um espetacular legado para a população do Rio de Janeiro. Faltam apenas seis anos e meio, e esse tempo é muito curto, pois 2016 é amanhã.

Marcus Quintella é engenheiro.