Malvinas por 'ahora'?

José Luiz Niemeyer dos Santos, Jornal do Brasil

RIO - A intervenção assertiva do presidente Lula na questão específica das Falklands ou das Malvinas será objeto de discussão nas próximas semanas.

O posicionamento do chefe de Estado brasileiro com relação ao tema não é algo trivial.

O processo de negociação ou de resolução de um novo potencial conflito , acerca da posse das ilhas por Inglaterra ou Argentina é muito grave.

Evidente que a Chancelaria brasileira pode e deve participar das discussões. A Argentina é um país vizinho e faz parte do Mercosul.

Todavia, a retomada de discussões deste porte deve seguir um rito político-institucional que, neste sentido, pode ter sido truncado com o duro discurso do presidente Lula.

Se a intenção do governo brasileiro foi dar apoio ao desejo argentino em retomar a posse do arquipélago, talvez o time da intervenção do presidente Lula tenha sido errado, sendo que os governos de Argentina e de Inglaterra necessitam de maior tempo para aprofundar a discussão diplomática entre eles próprios.

Se a fala do presidente Lula foi previamente combinada nos bastidores das chancelarias argentina e brasileira, também assim houve falta de planejamento estratégico por parte dos dois governos.

Buscar um aliado do peso do Brasil, logo no início de retomada de um difícil processo de (re) negociação como este, pode enfraquecer tanto quem precisa de maneira açodada de um aliado deste peso como quem assume ser aliado a qualquer custo de uma das partes numa questão estratégico-militar que envolve sua principal região de influência.

Se a intenção é fortalecer o Brasil como interlocutor dos países sul-americanos no âmbito da alta política internacional, visando, principalmente, uma cadeira permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, também o objeto de barganha e de exposição estratégica não é simples, e sim constitui-se em uma questão diplomática gravíssima, que se transformou na década de 80 em uma situação de guerra declarada, com reflexos nos mais variados campos do poder. Sem contar que a Inglaterra é parte interessada neste caso e tem poder de veto com relação a uma possível ampliação das cadeiras permanentes do CS.

Seria este o time mais propício para o Brasil se posicionar de forma tão peremptória e definitiva, principalmente no início de uma retomada (pretensa) de uma intenção (pretensa) em se rediscutir a posse das ilhas em questão?

As responsabilidades estratégicas do país são interessantes, mas limitadas. Nossa agenda de interesses se ampliou nos últimos anos, ok.

Mas nossos recursos de poder ainda são escassos, estão em processo de alocação e de realocação para objetivos de caráter mais sistêmico.

Por último: mesmo se a intenção estratégica da fala do presidente da República foi posicionar o Brasil com relação aos seus interesses no Atlântico Sul, principalmente com um foco na questão do pré-sal, o mote Retomada das Malvinas pela Argentina se configura como um meio por demais exagerado para ser utilizado pelo governo brasileiro neste momento.

José Luiz Niemeyer é coordenador da graduação em relações internacionais do Ibmec/RJ e Ibmec/MG.