Indomáveis terremotos

Alberto Veloso, Jornal do Brasil

RIO - Desde os primórdios, o homem teme os terremotos, mas procurou compreendê-los. Civilizações antigas imaginaram seres fantásticos para explicar porque o chão tremia, e conhecidos sábios, como René Descartes e Leonardo Da Vince, apresentaram explanações mais plausíveis. A Bíblia cita tremores em volta do Mar Morto e duas das sete maravilhas do mundo antigo Colosso de Rodes e o Farol de Alexandria sucumbiram diante de sismos. No fim do século 19, surgiram melhores instrumentos para registrar terremotos. O conhecimento cresceu quando as ciências geológicas foram impulsionadas pela teoria da Tectônica de Placas, na década de 1960. Portanto, estudar terremotos à luz de conhecimentos e técnicas modernas é um acontecimento recente e, talvez por isso, estejamos longe de conhecer todos os processos ligados à sua formação.

Firme como rocha! Essa é a sensação que sentimos ao pisar o chão abaixo de nossos pés, pois ele transmite solidez e segurança. Mas as camadas rochosas que sustentam os continentes e suas montanhas, os oceanos e suas ilhas as placas tectônicas estão em lenta e contínua movimentação.

Custa imaginar que um único sismo possa ceifar 830 mil vidas, mas ele aconteceu no norte da China, em 1540. Com magnitude estimada 8.0, provocou desmoronamentos de casas-caverna construídas nas encostas de terrenos frágeis e os que escaparam, pereceram pelo rigor do frio. Em 1975, ainda em solo chinês, um tremor de 7.5 matou 255 mil pessoas, mas informações não oficiais, mais do que dobram esta cifra. Antes, em 1812, um tremor de 7.7 produziu 26 mil mortes em Caracas, Venezuela. Do alto dos escombros da cidade um jovem militar ergueu sua voz em um apaixonante discurso, assim finalizado: Si la naturaleza se opone a nuestros designios, lucharemos contra ella y haremos que nos obedezca . As palavras de efeito serviram para acalmar uma multidão aterrorizada; Simon Bolívar já exibia seus predicados.

Terremotos menores são perigosos quando seus epicentros estão próximos de cidades. Foi assim em Tashkent, no Uzbequistão, que perdeu um terço da área urbana com a destruição de 85 mil construções. Em Agadir, no Marrocos, em pouco tempo, 10 mil pessoas pereceram por desabamentos e incêndios. Detalhe, as magnitudes dos dois tremores 5.2 e 5.7 foram menores do que os maiores já registrados no Brasil.

O maior dos terremotos Chile, 22/05/1960, magnitude 9.5 com epicentro no mar, a 150 km de Valdívia, modificou parte da topografia da costa chilena. Um vulcão entrou em erupção, povoados foram riscados do mapa e uma sequência de grandes sismos continuou martelando o sul do país. O número de mortos foi considerado pequeno, perto de duas mil pessoas. Mas os danos atingiram 50% do orçamento nacional no ano. Produziu um tsunami que danificou construções no Havaí e no Japão, matando 61 pessoas no primeiro local e 138, no segundo. O perigo levou à criação do sistema de alerta contra tsunamis no Pacífico. A falta de um, no oceano Índico, foi o principal motivo de mortes no avassalador tsunami produzido pelo sismo da Indonésia, em 2004.

Kobe no Japão e Porto Príncipe no Haiti são realidades completamente distintas, mas ambas localidades sofreram sismos parecidos quanto à magnitude, profundidade de foco, tipo de falha e proximidade das cidades nenhum é exatamente igual ao outro. Na cidade japonesa e arredores, morreram 5.502 pessoas, e no país haitiano, cerca de 200 mil. O recente terremoto no sul do Chile (27/2/10) apresenta parâmetros sísmicos diferentes; ocorreu bem distante de cidades importantes, mas foi 900 vezes mais forte. Os mortos já se aproximam de mil. A diferença entre o número de vítimas nos três episódios tem várias causas, mas a essencial vem da preparação daqueles países. Terremotos são imprevisíveis e incontroláveis e a melhor maneira de o homem conviver com eles é implantar e aprimorar técnicas de prevenção. Danos materiais serão inevitáveis, mas o que importa é preservar vidas.

As ondas sísmicas que balançam o chão e causam destruições representam uma pequena parte da energia estocada nas rochas antes de o terremoto acontecer. A grande parcela é consumida em calor e em novas deformações do terreno. A natureza foi benévola; de outra forma, o homem sofreria mais.

Alberto Veloso é geólogo e criador do Observatório Sismológico da UnB.