Um jogo de empurra

Mário Moscatelli *, Jornal do Brasil

RIO - Tenho acompanhado desde outubro de 1989 de muito perto os ciclos de renascimento e morte da Lagoa Rodrigo de Freitas. Iniciei minhas observações sobre a Lagoa paralelamente com a recuperação dos manguezais e pude rapidamente visualizar nos problemas e embates ocorridos nesses 20 anos, o histórico jogo de empurra entre as autoridades, fruto quase sempre da ausência de um gerenciamento ambiental moderno.

Na quarta-feira passada, recebo telefonema de uma jornalista querendo saber o motivo da Praia do Leblon estar inundada por um mar de fezes. A única resposta que pude pensar seria associada à algum despejo proveniente dos canais da Visconde de Albuquerque ou do Jardim de Alah. Na quinta, pelos jornais se lê a confirmação do que despejo proveniente do canal da Visconde de Albuquerque, oficialmente transformado em valão de esgoto, havia sido o responsável pela inundação fecal praiana. Na sexta, às 8h20 da manhã sou informado que peixes estavam morrendo desde às 3h. Eram savelhas, bagres, robalos, curvinas, manjubas e até a super resistente tilápia, todos boiando mais uma vez sob o triste olhar dos garis que os removiam das águas. Peixes subiam na superfície tentando obter o oxigênio inexistente na água e crustáceos pulavam da água para as margens secas onde morriam. Enquanto isso, robalos de até 8 kg foram capturados moribundos.

Nunca saberemos a verdade. Também ninguém será responsabilizado, ou melhor, será atribuída a culpa às forças da natureza. Gostaria, no entanto, de evitar discussões improdutivas nesse ano em que se comemora internacionalmente o ano da Biodiversidade e aproveitar mais essa mortandade na cidade que sediará nos próximos seis anos nada menos do que quatro grandes eventos internacionais, um deles, voltado exclusivamente às questões ambientais, para sugerir claras ações que visem dar maior estabilidade ambiental ao ecossistema da Lagoa, como a reinstalação do sistema de monitoramento automático físico-quimico online das águas da Lagoa, por meio de bóias espalhadas por diversos pontos.

Outra medida seria a dragagem dos pontos assoreados. Precisa ficar claro para os administradores públicos que periodicamente a Lagoa deverá ser desassoreada, não dependendo de apoios particulares ou eventos para que tal operação aconteça. Deve fazer parte do cronograma de prefeitura/estado, que, de cinco em cinco anos, pontos tais como a boca interna do canal do Jardim de Alah, foz do rio dos Macacos e entorno da ilha do Piraquê precisam ser dragados.

* biólogo