Economia e vida: desenvolvimento solidário

Selvino Heck *, Jornal do Brasil

BRASÍLIA - Nunca vi uma situação tão ruim. O volume de gente que nos procura desde o início da recessão aumentou drasticamente e ainda não começou a diminuir , disse o pastor da igreja de St. Paul, Estado do Tennesse, EUA (FSP, B10, 22.02.10).

Segundo o Departamento de Agricultura norte-americano, o número de cidadãos americanos com falta de acesso aos alimentos necessários a uma vida saudável (em português claro, passando fome) passou de 36,2 para 49 milhões, mostrando como a crise econômica afetou o país. Hoje 1 em cada 8 americanos recebe auxílio-alimentação (ou Bolsa família). Segundo Jaynee Day, diretora da agência Rede Feeding America, a face da fome nos EUA está mudando por causa da crise. Os núcleos familiares estão triplicando, com várias gerações em uma mesma casa, o que cria novas necessidades alimentares. São novos clientes. Não é gente sem teto que vem recebendo comida há anos. Perdemos muitos empregos por aqui, especialmente no setor automotivo .

Na Grécia, os trabalhadores em greve geral proclamam em seus cartazes: Não à austeridade e ao desemprego ; Não pagaremos pela crise dos ricos ; O povo e suas necessidades são mais importantes que os mercados .

Mais do que se justifica, pois, o tema da Campanha da Fraternidade/2010, Economia e Vida . Como diz o texto-base da Campanha, os sistemas econômicos dominantes levam à garantia dos privilégios dos ricos e dos governantes, em detrimento dos fracos e dos humildes. O dinheiro é transformado em ídolo. O pensamento dominante sobre o desenvolvimento não considera devidamente o valor da vida nem a dos seres humanos, nem a dos demais seres a Terra, nem a do próprio planeta. O desenvolvimento, é, muitas vezes, confundido com o aumento da riqueza, a qual favorece apenas os que dela podem se apropriar. Estes não se preocupam com os outros, pensam que cada um deve se capacitar e se habilitar para abocanhar o que conseguir. Sentimentos de piedade ou solidariedade inexistem nesta forma de pensamento. O modelo econômico ao qual se vincula assenta-se no egoísmo e acredita que o progresso é gerado pela concorrência, mesmo que antiética .

O desafio hoje é construir uma nova economia, um novo projeto de desenvolvimento, que já se desenha em alguns países, que se vislumbra nas experiências solidárias de milhares de grupos que, na solidariedade e na partilha, buscam o bem-viver, sem fome, sem miséria, sem opressão, sem desigualdade.

Uma economia a serviço da vida não se mede pelos bilhões de lucro ou superávit que produz ou pelo acúmulo de bens, móveis e utensílios dentro de casa, ou nos gastos supérfluos e sem sentido, ou no glamour estampado em revistas e meios de comunicação. A urgência e as necessidades são outras, no mundo da rápida informação global e dos gigantes econômicos que impõem suas vontades.

O retorno à simplicidade, que não significa abdicar do conforto e das coisas boas da vida, o gesto da partilha sem esperar nada em troca, o prazer de fazer coletivamente, a repartição justa dos bens produzidos, a capacidade de enxergar a dor e as necessidades do outro e da outra estão colocados como desafios da esperança e de uma utopia que constrói o Reino já a partir deste mundo.

Ou a economia gera vida para todos/as ou leva a crises e sofrimento de muitos. Essa a escolha a fazer. A Campanha da Fraternidade/2010 está no centro desta escolha, determinante para o futuro.

* Assessor especial do gabinete do presidente da República e da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política