'Caritas in veritate'

Dom Eugenio Sales *, Jornal do Brasil

RIO - O santo padre, o papa Bento XVI, ao publicar no dia 29 de junho de 2009 a sua terceira encíclica, a Caritas in veritate, retoma e desenvolve a doutrina social da Igreja desde a Rerum novarum (1891), a Populorum progressio (1967) e a Sollicitudo rei socialis (1987), e analisa as raízes verdadeiras desta doutrina: a caridade e a verdade.

A Populorum progressio, de Paulo VI, dava as coordenadas de um desenvolvimento integral do homem e desenvolvimento solidário da humanidade, que não se limita ao meramente econômico mas implica a aquisição de cultura, respeito, dignidade e reconhecimento de Deus, origem e termo dos valores supremos (cf. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, pág. 66).

A Sollicitudo rei socialis, de João Paulo II, de 30 de dezembro de 1987, comemorando o vigésimo aniversário de Populorum progressio, acentuava a situação dramática do mundo de hoje, considerando a falta de perspectivas no Terceiro Mundo, admoestando os ricos que o ideal não pode ser o ter mas o ser (Compêndio, pág. 67).

Exaltando especialmente o eminente valor da Populorum progressio, Bento XVI diz que esta encíclica de Paulo VI merece ser considerada como a Rerum novarum da época contemporânea, iluminando o caminho da humanidade em vias de unificação (nº 8, 2).

O papa Bento XVI situa a sua encíclica na sequência dessa tradição e no contexto do mundo de hoje com seus novos desafios. O risco de nosso tempo é que, à real e crescente interdependência dos homens e dos povos, não corresponde a interação ética das consciências, da qual possa resultar um desenvolvimento verdadeiramente humano (nº 9). O papa respeita e convida homens e mulheres competentes da ciência, da política e técnica a assumirem suas responsabilidades; ele, porém, fornece, com luminosa análise, os critérios últimos, segundo os quais os planos políticos e socioeconômicos devem ser atuados. Destarte, ele traça em linhas vigorosas o grande ideal para a atuação não só do cristão mas de toda pessoa honesta, de toda a sociedade.

Não somente o amor é dom; mas toda existência é puro dom do Criador. Assim, as fundamentais normas do direito, de respeito humano, sempre devem ser expressão deste amor do Deus Criador, que quer que o seu dom da vida em nós seja pleno. A gratuidade de nossa existência humana já é reflexo daquele supremo dar e receber entre Deus Pai e Deus Filho, no Espírito Santo (cf. nº 5).

A justiça é sempre uma primeira medida da caridade. Mas a própria justiça deve ser realizada pelo amor, esta força extraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se com coragem e generosidade no campo da justiça e da paz (nº 1). Assim, o cristão realiza também as exigências da justiça e do compromisso com o bem comum (cf. nn. 6 e 7), não como alheios à caridade (...) mas como algo inseparável da própria caridade (nº 6, 2). A cidade do homem não se move apenas por relações feitas de direitos e deveres mas antes e sobretudo por relações de gratuidade, misericórdia e comunhão (nº 6, 2). A caridade dá valor teologal e (...) a caridade supera a justiça e a sublima (ibidem).

Assim, querer o bem comum e trabalhar por ele é exigência da justiça e da caridade. Ama-se tanto mais eficazmente o próximo, quanto mais se trabalha em prol de um bem comum, que dê resposta também às suas necessidades reais (nº 7). É este o caminho institucional e político da caridade. O político, o intelectual, cada cidadão, que assim age no tempo, prepara o eterno (ibidem).

De outro lado, por mais que a caridade dê valor teologal a todo empenho da justiça no mundo (nº 6, 2), ela, a caridade, precisa da luz e da certeza da verdade. Sem a verdade, sem confiança e amor pelo que é verdadeiro, não há consciência e responsabilidade social, e a atividade social acaba à mercê de interesses privados e de lógicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade (nº 9).

Sem o rigor da verdade (racional e sobrenatural) a caridade cai ao nível de sentimentalismo, torna-se vítima de sentimentos relativos. O papa, então, caracteriza de modo surpreendente o estranho jogo de palavras que, não raro, nos mais altos níveis políticos, judiciários e também acadêmicos, cursam, insultando a verdade e enganando os incautos. É o risco fatal do amor numa cultura sem verdade (absoluta); acaba prisioneiro de emoções e opiniões contingentes dos indivíduos, uma palavra abusada e adulterada chegando a significar o oposto do que é realmente (nº 3).

A verdade liberta a caridade dos estrangulamentos do emotivismo. Deus é Amor e Verdade; deste Deus o homem deve ser imagem.

Sintetizando a grandeza do humanismo cristão, o santo padre lembra: Sem Deus, o homem não sabe para onde ir e não consegue sequer compreender quem é. Perante os enormes problemas do desenvolvimento dos povos que quase nos levam ao desânimo e à rendição, vem em nosso auxílio a palavra do Senhor Jesus Cristo que nos torna cientes deste dado fundamental: 'Sem mim, nada podeis fazer' (Jo 15,5). E encoraja: 'Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo' (Mt 28,20). Paulo VI recordou-nos, na Populorum progressio, que o homem não é capaz de gerir sozinho o próprio progresso, porque não pode por si mesmo fundar um verdadeiro humanismo. Somente se pensarmos que somos chamados, enquanto indivíduos e comunidade, a fazer parte da família de Deus como seus filhos, é que seremos capazes de produzir um novo pensamento e exprimir novas energias ao serviço de um verdadeiro humanismo integral. Por isso, a maior força ao serviço do desenvolvimento é um humanismo cristão que reavive a caridade e que se deixe guiar pela verdade, acolhendo uma e outra como dom permanente de Deus (nº 78).

* arcebispo emérito do Rio