Bancos privados perdem argumento

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Tem razão o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao afirmar que foi criado um novo paradigma no sistema bancário com o lucro recorde de R$ 10,15 bilhões atingido pelo Banco do Brasil em 2009 crescimento de 15,3% em relação ao resultado do ano anterior. Não pelo volume em si mas pelo fato de essa marca história ter sido obtida com base na ampliação de crédito aos clientes, com juros mais baixos. Acabaram-se as desculpas das instituições privadas para não adotar essa linha de ação a alegação até aqui era que o lucro seria significativamente reduzido. O Itaú-Unibanco, que liderava o ranking divulgado pela consultoria Economática, ficou na segunda colocação, com receita líquida de R$ 10,06 bilhões.

A evolução geral foi puxada pelo segmento pessoa física, cujos financiamentos entre todas as instituições deram um salto de 88,1%, para R$ 91,79 bilhões. E deve ficar claro que não se está propondo ou defendendo uma intervenção do governo na orientação de bancos privados. Dentro da lei, essas instituições podem cobrar as taxas que entenderem mais lucrativas na relação custo-benefício, assim como podem buscar seu lucro através da oferta maior de crédito ou via outros produtos. Afinal, ninguém obriga ninguém a ser correntista do banco A ou B (salvo uma ou outra empresa), e as pessoas sabem o que estão fazendo quando assinam o contrato com a instituição bancária (apesar da letra microscópica do papel). Só não será mais aceita a ladainha de que crédito farto a juros populares é sinônimo de lucro menor. O BB está aí mesmo para provar o contrário.

A boa perspectiva para o mercado e os consumidores é que o fato de essa política levar o BB ao topo do lucro deve influenciar os concorrentes privados, se não a mudarem radicalmente sua linha de atuação, pelo menos a pensarem no que os levou a perder a primazia e serem mais generoso na concessão de crédito e menos gananciosos na cobrança de juros.

A mudança na política do BB foi um dos aspectos positivos se é que houve mesmo algum da crise econômica mundial, que andou batendo à porta do Brasil. No auge das dificuldades, o governo orientou as instituições federais a expandirem o crédito e, lembre-se, sob severos olhares de desconfiança dos especialistas . A determinação era tamanha que chegou ao ponto de provocar uma troca de comando no BB, com a ascensão de Aldemir Bendine. O resultado foi que, segundo números do Ministério da Fazenda, de setembro de 2008 a janeiro de 2009, BB, Caixa Econômica e BNDES elevaram em 48% a oferta de crédito. No mesmo período, o incremento desse quesito entre os bancos privados foi de escassos 11,3% os estrangeiros contribuíram com 4,2%.

A excelência dos números dos bancos estatais, notadamente o Banco do Brasil, mostra que de uma política inicialmente apenas anticíclica pode-se criar uma linha de ação duradoura que mantenha a economia bem aquecida por uma via mais popular, sem que se corram riscos de diminuir os tão buscados lucros. As instituições governamentais têm a obrigação de fazer isso, ou seja, lutar pelo bem-estar financeiro dos brasileiros. Os bancos privados podem não ter essa obrigação tão clara sob a luz fria da lei. Mas deveriam tê-la nos corações e mentes de seus executivos.