Nada melhor do que um exemplo

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Depois da prisão do governador da capital do país, José Roberto Arruda, a população brasileira acompanha agora, estarrecida, o processo que pode culminar na cassação do prefeito da maior cidade brasileira, Gilberto Kassab coincidentemente, ambos oriundos do DEM. Mais do que isso, toda a possível linha sucessória de Arruda encontra-se às voltas com explicações à Justiça, enquanto em São Paulo, além da vice-prefeita, Alda Marco Antônio, oito vereadores (cinco do PT, dois do PSDB e um do DEM) também sofrem um processo de cassação.

Já foi objeto de comentário neste espaço a importância cada vez mais urgente de uma limpeza ética na política nacional. A sensação dos eleitores é que a política tornou-se uma terra de ninguém, na qual os eleitos fazem o que queriam em benefício próprio sem que sejam alcançados por qualquer tipo de controle. Os exemplos de Arruda só o fato de ele ter sido privado da liberdade em pleno Carnaval já é sintomático e de Kassab principalmente se, mesmo após exercer seu direito de defesa, ele vier a perder o mandato por ter recebido doações de forma ilegal podem não apenas começar a acabar com a descrença dos eleitores nos poderes constituídos. O melhor efeito seria que os políticos desonestos passassem a pensar duas vezes antes de transgredir a lei, tivessem medo de fazê-lo, ou fossem procurar outro palco que não o poder público para seus desmandos.

A importância de que se punam exemplarmente os dois mandatários cresce tanto em função do nome de ambos figuras de destaque no cenário político como dos crimes dos quais são acusados. Tanto a corrupção quanto a doação ilegal em campanhas são coisas quase tão velhas quanto a própria política. Submetê-los às penas previstas em lei, sem subterfúgios, sem artimanhas ou atalhos legais que os livrem da pena, é importante porque é a porta abrindo-se para que todos os envolvidos sejam pegos. Afinal, sempre alguém corrompe o corrupto, sempre alguém doa ilegalmente o que o político recebeu.

Antes que algum colega dos acusados, corporativista, venha com o discurso da caça às bruxas, é preciso ficar claro que não se está aqui defendendo nenhuma fiscalização em personagens mitológicos sobre uma vassoura. A caça que se exige é a quem usa o cargo público dado pelo eleitor ou mesmo que tenha sido conquistado por concurso para obter vantagens pessoais. Esse tipo de crime é o que mais irrita o eleitor, é o que mais esgarça a crença na política como um instrumento de avanço para qualquer nação.

Foi bastante difundido em todo o país o episódio do último dia 25 de setembro, quando um atirador de elite da Polícia Militar do Rio encerrou um caso de sequestro do refém em frente a uma farmácia da Tijuca da forma mais trágica mas através da única opção dada pelo bandido, que acabou morto. Ninguém seria leviano de defender execuções sumárias ou julgamentos sem direito a defesa dos acusados. Mas é fato que, depois daquele episódio do sniper, não houve mais notícia de qualquer outro crime dessa natureza. É o que se chama de exemplo. A política brasileira está há muito tempo precisando de exemplos firmes que deem a toda a comunidade do país a certeza de que o crime não compensa.