O sacrifício de Giordano Bruno

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, Jornal do Brasil

RIO - Há 410 anos, mais exatamente em 17 de fevereiro de 1610, o filosofo Giordano Bruno, depois de recusar a se retratar de suas ideias em público, foi queimado vivo, no Campo di Fiori, em Roma. Só por pensar que o sol era um corpo a mais no universo e que existiam muitos outros e que possivelmente só possivelmente o universo era infinito. Muito poderia ser escrito sobre este e outros atos desumanos e estúpidos de perseguição. No entanto, o mais triste é saber que menos de uma década mais tarde já havia provas suficientes, graças às observações telescópicas de Galileu, para confirmar o que Giordano havia afirmado. Com efeito, quando Galileo Galilei apontou seu telescópio para o céu à noite, mostrou, literalmente, a existência de outros mundos. Aliás, o próprio Galileu teria quase a mesma condenação, se não fossem uas amizades eclesiásticas.

Na segunda metade do século 16, as teorias de Copérnico começaram a se difundir através da Europa. Ainda que Giordano não tenha completamente aceitado as preferências matemáticas de Copérnico e as especulações e preferências matemáticas copernicanas, Bruno defendia o ponto de vista heliocêntrico segundo o qual a Terra não era o centro do universo e extrapolou algumas consequências mais radicais com relação à cosmologia da sua época.

Alguns astrônomos da geração de Bruno aceitavam o modelo heliocêntrico de Copérnico. Dentre eles os alemães Michael Maestlin e Cristoph Rothmann e o inglês Thomas Digges, autor do A perfit description of the caelestial orbes. Galileu e Johannes Kepler ainda eram bem jovens. Bruno não era propriamente um astrônomo, mas um dos primeiros a aceitar o copernicanismo como uma visão de mundo, rejeitando o geocentrismo. Nos seus trabalhos publicados entre 1584 a 1591, Bruno defendeu com entusiasmo as ideias de Copérnico. Além do modelo heliocêntrico, Bruno imaginava o universo no qual como imaginou Plotino no século 3 ou como Blaise Pascal no século 17 o seu centro estava em todos os lugares e sua circunferência em lugar nenhum, uma antecipação da teoria da relatividade de Einstein no início do século 20.

Ao contrário, Bruno acreditava como atualmente é universalmente aceito que a Terra se deslocava no espaço e que o movimento de rotação aparente diurno do céu era uma ilusão causada pela rotação da Terra ao redor do seu eixo. Ele também não via nenhuma razão para acreditar que a região estelar fosse finita ou que todas as estrelas estivessem equidistantes de um ponto central do universo. Como, aliás, esta visão era similar a que Thomas Digges expôs em sua obra A perfit description of the caelestial orbes (1576). No entanto, Digges considerava que a região infinita além das estrelas seria a residência de Deus, dos anjos e do Paraíso. Ele conservou a noção ptolomaica das esferas planetárias, considerando a Terra como o único sítio onde existia vida e o único lugar imperfeito e mutável em comparação com o firmamento (céu), onde reinava a perfeição e a imutabilidade.

O que aconteceu desde então com a visão do universo? O que aconteceu com as ideias sacrílegas de Giordano em relação aos outros mundos como a Terra? Qual seria a posição dos inquisidores hoje, 400 anos mais tarde? Principalmente, a descoberta do primeiro planeta fora de nosso sistema solar na estrela 51 Pegasi, em meados dos anos 90 do século passado. Atualmente, mais de 450 planetas extrasolares já foram descobertos em torno de outras estrelas. A grande maioria dos planetas é tão grande como Júpiter, embora o número de semelhantes à Terra esteja aumentando assim como quantidade total é atualizado quase diariamente.

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão é criador e primeiro diretor do Museu de Astronomia e Ciências Afins, e autor de mais de 85 livros, entre os quais O livro de ouro do universo. O endereço do seu site é .