Editorial, Jornal do Brasil
RIO - A notícia é desanimadora e deixa em alerta os milhares de frequentadores das praias do Rio de Janeiro, um contingente que se multiplica nestes dias de calor do alto verão e com a chegada dos turistas para o Carnaval. Levantamento divulgado ontem, pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente, mostra que várias praias da cidade estão impróprias para o uso.
Não é a qualidade da água, desta vez, o foco do problema. Mas a da areia, o que restringe ainda mais a liberdade de lazer. Em muitos casos, os frequentadores das praias cariocas já evitam entrar no mar devido às recomendações publicadas nos veículos de comunicação ou pela observação, a olho nu, do aspecto da água. Mal sabem eles que também a areia está repleta de outros vilões, menos fáceis de se detectar.
Surpreendentemente, é a areia de Ipanema, e não a de Copacabana, a mais suja da orla. Foram avaliadas amostras de 35 pontos de diversas praias, sendo dez delas da Baía de Guanabara e o restante nas praias oceânicas. Entre estas, a de Ipanema apresentou, em 100 gramas de areia, uma quantidade de coliformes fecais acima de 30 mil. O número de Escherichia coli, bactéria presente nas fezes de animais, ultrapassou os 3.800. Além de Ipanema, outra praia não recomendada é a da Barra, na altura do Pepê e da Avenida Ayrton Senna.
A situação revelada pelo levantamento representa um risco enorme à saúde da população. As bactérias encontradas nas areias podem causar doenças como micoses, diarreia e hepatite A. Estão mais vulneráveis à contaminação sobretudo idosos e crianças. Como controlar que um bebê não leve à boca a mão suja de areia? Como esperar que não haja maiores contatos diretos com a sujeira, a despeito das dicas de se usar cadeiras e cangas?
Tudo isso é paliativo e um apenas um jeito de driblar o problema, que deve ser atacado de frente. Tanto pelas autoridades competentes quanto pela própria população. A principal razão dessa perigosa sujeira é a presença de pombos e de cachorros, levados à praia por donos irresponsáveis e deseducados. Praia não é lugar para animais, que não têm controle sobre seus esfíncteres. Já basta a displicência e o comodismo de pais que levam seus filhos pequenos para se limparem nos chuveiros utilizados pelos banhistas.
É a própria população a responsável pela má qualidade das areias da praia. Mas a prefeitura também tem sua culpa, pela falta de rigor em relação aos desvios dos moradores. É fácil coibir os vendedores ambulantes, como a operação Choque de Ordem tem feito até agora, proibindo, corretamente, a venda de produtos comercializados sem critérios de higienização mínima, como o camarão frito e o queijo coalho. Mas e os cachorros, por que não se combater essa presença indesejada? Que se façam campanhas de conscientização e que haja uma melhor fiscalização, dia e noite.
Já está provado, e o caso de Nova York é exemplar, que a melhor maneira de uma cidade combater grandes delitos é mostrar que os pequenos também não são tolerados. Isso vale muito para a questão da segurança pública. E é uma lição, como se vê, com repercussões para a saúde e a qualidade de vida dos cidadãos.
O cachorro pode ser o melhor amigo do homem, mas é também o maior inimigo dos banhistas.