Transporte: o retrocesso que ameaça o Rio

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Não é preciso ir muito longe na memória para ter a exata noção de que o crescimento urbano trouxe uma degradação impressionante ao transporte de massa na região metropolitana. Antes da consolidação do modelo privatizado, no qual o estado entra como ente fiscalizador através das agências, a opinião unânime era a de que não se poderia continuar como estava. Veio então o metrô como símbolo de um planejamento racional, no qual praticidade, economia e conforto funcionam como poderosos elementos de desestímulo ao uso cotidiano de carros de passeio. As barcas que fazem a ligação Rio Niterói, por mais folclore e charme que tivessem a travessia com a brisa da Baía de Guanabara à guisa de ar condicionado era tudo não ofereciam a confiabilidade e a frequência capazes de atenderem às necessidades dos usuários. A solução foi privatizar o sistema, como garantia de um novo modelo de operação, mais moderno e integrado.

No caso do metrô, por muitos anos o carioca pôde falar com orgulho da limpeza dos trens, do silêncio dentro dos vagões produzidos sob licença da Budd Company, uma empresa especializada dos EUA, das estações amplas embora aquém do necessário em termos de funcionalidade. E todo mundo sonhava com o avanço das linhas, tanto a 1 quanto a 2, de forma que cada vez mais fosse preciso gastar menos tempo dentro de ônibus quentes, desconfortáveis por serem montados em chassis de caminhão e barulhentos. Quando isso aconteceu, a absorção de público, surpreendentemente, não se deu na mesma proporção.

A explicação poderia estar no gargalo do sistema, a transição das duas linhas no Estácio. Quando finalmente esse problema foi solucionado com a construção da ligação via São Cristóvão, o que deveria ser um alívio virou tormento. Todo o orgulho com os trens limpos e refrigerados, com as estações onde não se via um só papel jogado no chão, desapareceu por encanto. O brutal aumento de volume de passageiros não foi acompanhado pela qualidade proporcional do serviço. Pelo contrário, a impressão geral é a de uma surpreendente degradação.

É caso para se perguntar: a quem interessa um metrô que não funciona? Só a quem tem muito a perder com a melhoria do sistema como um todo. O Rio deve ser uma das poucas cidades do mundo onde o planejamento de transportes se tornou completamente refém dos interesses privados. O estado constrói as galerias e estações, mas é um consórcio quem opera. E opera cada vez pior, dadas as últimas avaliações. Nem adianta reclamar muito, uma vez que ganhou o direito de explorar essa concessão por mais tempo em troca de investimentos na ampliação. Se era para continuar transportando todos como gado, como antes, por que então gastar esses bilhões de dólares com o metrô?

Há alguém obtendo vantagens com a bagunça. Só uma explicação assim torna coerente uma deterioração tão acentuada e rápida em todo o conjunto do transporte de massa, metrô, ônibus, barcas e trens. Não há hoje um só cidadão que fique satisfeito com o serviço que recebe. As tarifas não são baratas e continuam a ser calculadas em dados fornecidos e controlados pelas próprias participantes do sistema. Não há poder público que consiga mudar isso. É preciso cobrar por transparência total. Não há outro caminho.