A crise em Portugal

António Gomes da Costa, Jornal do Brasil

RIO - Para alguns analistas, Portugal está a tornar-se um país cada vez mais difícil de governar. Aos problemas estruturais e crônicos, que vão dos recursos escassos às limitações para alavancar o crescimento econômico, adicionaram-se nos últimos anos vários agravantes e tudo isso torna o futuro da nação incerto e problemático.

Entre esses agravantes está o fato de metade da população ser dependente dos cofres do Estado. Juntando aos funcionários públicos os desempregados e os aposentados, são mais de 5 milhões as pessoas que vivem dependuradas nas tetas do erário público. E esse número tende a aumentar, ou por causa da crise, com o fechamento de empresas e a falta de trabalho, ou porque os fluxos e os tempos da reforma são cada vez maiores.

O Estado não tem onde buscar dinheiro suficiente para fazer face a todos os seus compromissos. Nem que venda a Torre de Belém e as alfaias, como diriam os autores de As farpas. Enquanto entravam os fundos europeus, ainda se foi aguentando, entre o bom-senso de poucos e a esbórnia de muitos; depois, caiu-se no endividamento, e as agências de risco internacionais já começam a emitir sinais de desconfiança. Resta, com o crédito mais difícil, a única alternativa: aumentar os impostos para se criarem receitas e evitar a bancarrota.

Entretanto, num cenário global difícil, com a produção em queda, com os investimentos ressabiados, com as receitas do turismo e as remessas dos emigrantes a diminuírem, onde buscar estímulos ou como ampliar a base tributária para o Estado arrecadar mais recursos?

Um outro fator está ainda a atingir, pela negativa, a economia portuguesa. É a situação na Espanha, que se deteriorou ao longo do governo socialista de Zapatero e que hoje é uma preocupação para a própria União Europeia pelo tamanho do desequilíbrio, pelo volume de desemprego, pela inadimplência financeira e pela bolha imobiliária . A recessão no país vizinho refletiu-se em cheio na vida portuguesa da banca à hotelaria, da mão de obra ao comércio das cidades, o certo é que no dia a dia a crise castelhana estendeu-se por Portugal, e trouxe consequências perversas para muitos setores.

Com a queda no poder de compra; com uma faixa de desemprego já acima dos 10%; com o endividamento a ultrapassar o PIB; sem recursos de fora dos quais o país sempre viveu, fossem eles das antigas colônias, da emigração ou dos subsídios da Europa temos para nós que os portugueses, para se livrarem da encruzilhada em que se meteram, não podem continuar à espera de uma revoada sebastianista , ou depositar todas as fichas nas mãos do Estado, para que este cuide de tudo e a tudo proveja, como querem os políticos que estão no poder e rosnam na engorda.

Se os portugueses não tiverem coragem para mudar e fundir uma nova mentalidade, cujos vetores principais devem ser o trabalho, a austeridade, a competência e a inovação para construir um país diferente, então, só lhes restará uma alternativa: deixar correr, como apetece aos que não foram capazes de desviar o país do naufrágio, e esperar por um milagre...

António Gomes da Costa é presidente do Real Gabinete Português de Leitura.