Um país contra a má educação

Editoria, Jornal do Brasil

RIO - Entre os maiores obstáculos ao pleno desenvolvimento do Brasil está a educação. Este é o próximo grande desafio que deverá ser enfrentado, com paciência, mas sem rodeios. É a bola da vez dentro das políticas públicas prioritárias do Estado. Nos anos 90, o país derrotou a inflação que corroía salários, causava instabilidade política e irracionalidade econômica. Na primeira década de 2000, os avanços se deram em direção a uma agenda social, voltada para a redução da pobreza e da desigualdade estrutural. Nos próximos anos, a questão da melhoria da qualidade do ensino deverá ser uma obrigação dos governantes, sejam quais forem os ungidos pelas decisões das urnas.

Um retrato da má educação no Brasil foi apresentado na última terça-feira por um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Como sempre, há alguma boa notícia, novamente relacionada à cobertura do sistema, a indicadores quantitativos, mas logo descompensada pelos dados que mostram a qualidade no ensino.

O acesso dos jovens à escola aumentou. Em 2007, 82% dos adolescentes entre 15 e 17 anos frequentavam as salas de aula. É um avanço, ainda que não seja motivo de comemoração saber que 18% de jovens em idade escolar estão fora do sistema educacional. O problema é que, entre estes 82%, menos da metade, 48%, estava no ensino médio, ou seja, na etapa de ensino esperada para a faixa etária destes jovens. Os outros 52% formavam o grande contingente de estudantes em atraso escolar.

Esta defasagem é um dos grandes nós da educação, pois está associada a inúmeros fatores como a dificuldade de aprendizado, a falta de interesse pelos estudos e o aumento das possibilidades de evasão escolar.

Por outro lado, atitudes de condescendência com o desempenho dos alunos, na maioria das vezes, acabam por piorar ainda mais a situação. O professor finge que ensina, e o aluno finge que aprende. Não à toa, a outra face dessa mesma moeda é a de estudantes que, muito embora avancem e passem de ano, mal sabem ler e escrever. Há casos até de semianalfabetos que chegam ao ensino médio. Dados do Instituto Paulo Montenegro, braço social do Ibope, mostram isso.

A pesquisa do Ipea também abordou esse aspecto do problema e mostra que o Brasil ainda tem 1,5 milhão de jovens (15 a 29 anos) analfabetos.O detalhe é que, de acordo com números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), feita pelo IBGE, 44,8% das pessoas analfabetas com 15 anos ou mais já haviam frequentado os bancos escolares. Ou seja, a passagem por uma instituição de ensino, em muitos casos, torna-se mera formalidade.

Há uma série de razões que explicam esse quadro. Os baixos salários que não incentivam a entrada de bons professores para a rede pública e até a particular de ensino; a falta de investimento nos profissionais e na infraestrutura das escolas que não exige grande sofisticação, mas o básico, como acesso a uma biblioteca e, principalmente, um ambiente de valorização do ensino, sobretudo em casa. Como os pais, muitas vezes, têm escolaridade ainda mais baixa que os filhos mas não só por isso há um círculo vicioso. Qualquer política pública eficiente precisará ir além dos muros da escola.