O Haiti não é aqui

José Luiz Niemeyer dos Santos, Jornal do Brasil

RIO - Alguns acham que o Haiti é aqui. Isto já foi cantado até em música. Mas, não, o Haiti não é aqui.

Aqui é uma das principais bases de exportação de veículos do mundo. Incluída a linha de caminhões de grande porte. Mais: é da linha de produção da Fiat no Brasil que sairão novos e modernos blindados para o Exército. O Haiti produz um único produto semi-industrializado para exportação: confecções.

O Brasil quer uma cadeira como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. O Haiti precisa ter alguma voz ativa no plenário da assembleia. E não terá.

O Brasil é um dos principais fornecedores de comida do mundo. Todas as carnes. Todos os grãos. Exporta, inclusive, máquinas e equipamentos agrícolas e está retomando a produção de todos os tipos de adubos. A Vale, por exemplo, faz parte desta nova posição estratégica do país nos mercados internacionais da agro-energia. O Haiti vive em situação de insegurança alimentar há décadas.

O Brasil será em breve um dos países mais relevantes do planeta no que tange a uma diversificada pauta de exportação dos muitos tipos de energia. E também com relação aos modelos/serviços de produção desta energia. Vejam o que ocorre no campo com relação aos processos de reflorestamento e consultorias técnicas da Embrapa e outros agentes públicos e privados. Não há energia disponível no Haiti. Não há nem água potável.

A violência no Haiti é endêmica e caracteriza-se como guerra civil declarada, operacionalmente de difícil confrontação pelas forças oficiais e fundada na instabilidade política e social de levantes e golpes de Estado corriqueiros. A democracia brasileira avança mesmo com suas imperfeições em um processo de inclusão econômica e de participação e competição política. Por exemplo, o Poder Judiciário está sendo reformulado, e a República incorporará os excluídos do processo democrático, transferindo a sociedade brasileira da capital para o interior do país. É um movimento sem volta de modernização das instituições nacionais. Não há pacto federativo e desenvolvimento regional no Haiti. O principal centro urbano é o próprio centro do caos. A logística interna é ineficiente, e não há oportunidades econômicas fora da capital Porto Príncipe. Há mais de 300 municípios no Brasil nos quais não existe criança sem escola, pai sem emprego, um velho sem assistência. É a partir do interior do Brasil que ocorrerá a integração física do continente sul-americano, seja para auxiliar os processos originários no Mercosul, seja para incrementar os acordos na região amazônica ou no além-mar, com países e regiões que querem cooperar com o Brasil.

Não há informação no Haiti. Nenhum tipo de informação a não ser o simbolismo e a ação da violência corriqueira. O Brasil é um dos maiores beneficiário da internet, e a oferta de informação qualificada cada vez mais atinge o cidadão comum. Há um exército de funcionários sendo formado nas organizações empresariais, um tipo de iniciativa que não aparece, mas que reverbera muito bem na imagem real de uma sociedade onde milhões de pessoas fazem algum tipo de trabalho social após o horário do serviço.

Antes que algum pessimista de plantão (não sei bem com que objetivos...) diga que o Haiti é aqui, lembremo-lo de alguns destes quesitos descritos acima. E há outros milhares.

Ajudemos, sim, o Haiti. (Aliás, outro quesito do nosso alvissareiro processo civilizatório: cooperamos cada vez mais com a comunidade de países e exportamos nossos modelos de política públicas e de solidariedade social).

José Luiz Niemeyer dos Santos Filho é coordenador da graduação em Relações Internacionais do Ibmec/RJ e Ibmec/BH.