Perdição ou salvação

José Sarney, Jornal do Brasil

RIO - O fim de 2009 foi marcado pela tragédia dos deslizamentos e pela lembrança inusitada das agulhas introduzidas no corpo de crianças, numa prática religiosa que remonta aos festins de magia negra que o diabo fazia no princípio do mundo.

A Bíblia está cheia desses episódios. O mais célebre deles é o da vara de porcos endemoninhados que foram jogados no precipício, com sua carne impura para judeus e árabes.

Esse é um fanatismo primitivo ligado à concepção satânica de que o espírito imundo teria poderes tão violentos que podia mesmo tentar o próprio Jesus, oferecendo-lhe a Terra inteira, contanto que a ele fosse entregue a alma dos homens.

Mas o que está atualmente me impressionando é o fanatismo massificado coletivo, que faz com que, pouco a pouco, cresça na humanidade a intolerância e a crueldade. O sonho de uma convivência pacífica entre as diversas religiões não caminhou: está restrito a guetos intelectuais de pensadores e scholars sem a esperança de que possam ser ouvidos.

Por outro lado, a Al Qaeda conseguiu internacionalizar-se e recruta, cada vez mais, jovens para sua causa. A guerra de Bush resultou no recrudescimento do terrorismo e da própria Al Qaeda, que ressurge agora no domínio do Iêmen e se espalha por Argélia, Nigéria, Mauritânia, Mali, Chade, Saara Ocidental, Tunísia, Somália. Isto sem falar no foco do Afeganistão, do Paquistão, do Iraque e na infindável motivação que permeia o movimento palestino.

Dissemina-se assim o terror, e a ideologia do fanatismo religioso passa a substituir a ideologia do fanatismo político.

Essas meditações me ocorrem quando vejo a declaração desse nigeriano Omar Farouk, que quis explodir o avião da Northwest Airlines que voava para Detroit na noite de 25.

Preso, ele disse, frustrado, às autoridades que estava desolado porque não pôde expulsar todos os infiéis e realizar o seu desejo de matar os empregados em embaixadas e outros organismos internacionais. Ódio a todos .

Isso que se faz sob a invocação de Deus é de um primitivismo que une animais e o homo sapiens.

Assim, o fanatismo pode ser o elemento desintegrador da humanidade e das sociedades, com a ideia de que Deus condenou uns à salvação e outros à perdição. O caminho escolhido é o poder teocrático, e obrigar pela força a acreditar em sua versão de Deus.

Podemos todos estar condenados, sem saber, à perdição, incapazes de exercer uma opção que não é de Deus e sim dos homens.

E o diabo não terá mais em que enterrar agulhas.

José Sarney é senador (PMDB-AP).