Estão sujando nossa matriz energética

Humberto Viana Guimarães, Jornal do Brasil

RIO - Uma coisa é certa e não tem mais retorno: com o atual nível do aquecimento global e suas consequências cada vez mais catastróficas, só nos resta investir, cada vez mais, na conservação e proteção do meio ambiente; já não é mais uma questão de opção e sim de obrigação para que as futuras gerações possam sobreviver.

No que se refere à geração de energia, que é um dos principais sustentáculos do desenvolvimento de um país (nenhum grande investidor vai colocar seus bilhões de dólares onde não tem energia), é preciso ressaltar que nenhuma fonte energética isolada é o melhor caminho para se garantir um abastecimento firme e seguro, devido à sazonabilidade climática, principalmente nestes tempos de desequilíbrio ambiental. O Brasil, sem lugar a dúvida, é o país que oferece maiores opções para diversificar as suas fontes de geração, renováveis e limpas.

No entanto, apesar das boas intenções contidas nos discursos do presidente Lula que, alardeia pelo mundo afora que quer o Brasil na vanguarda dos países engajados no planeta limpo, inclusive propondo a criação de um fundo para tal, parece que algumas autoridades não estão nem aí para as suas diretrizes, que vão exatamente em sentido contrário dos seus objetivos. Ou seja, nos grandes palanques internacionais com a grande mídia presente, o Brasil defende uma posição, mas aqui dentro a situação é totalmente diferente, pois alguns insistem em sujar a nossa matriz energética!!! Analisemos os números da Aneel (04/01/10, aneel.gov.br).

No que se refere à energia eólica existem 44 empreendimentos outorgados que alcançam 2.125 MW e dez em construção com 257 MW, o que dá um total de 2.381 MW. Para o setor da hidroeletricidade temos 236 empreendimentos outorgados com 4.387 MW e 88 em construção com 11.306 MW, com um total de 15.693 MW. No que se refere às termoelétricas, pasmem prezados leitores! São 166 empreendimentos outorgados com 12.989 MW e 63 com 6.411 MW em construção, o que dá um total de 19.400 MW. Ou seja, entre os empreendimentos outorgados e em construção, as termoelétricas poluentes e caras ultrapassaram em 24% as renováveis, limpas e baratas hidroelétricas, o que é um absurdo total. E, o que é pior, das termoelétricas em construção, 45,81% utilizarão óleo combustível, 48,07%, carvão mineral (absurdos 93,88%) e somente 6,11%, gás natural. Nos empreendimentos outorgados, os números praticamente não mudam. O óleo diesel e combustível entram com 41,51%, o carvão, com 37,68% (total de 79,19%), e o gás natural com 21,81%. Resumo da história: as autoridades falam uma coisa e praticam outra!

É mais do que óbvio que as melhores opções para o Brasil são as fartas e limpas fontes renováveis: hidroeletricidade, biomassa, eólica e solar. Felizmente, observamos que estes setores estão crescendo cada vez mais, notadamente o das Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) e a biomassa, com potencial acima de 25 mil MW, cada uma, e a eólica. No que se refere à energia eólica, o último inventário indicava um potencial com mais de 140 mil MW, utilizando torres de até 50 metros de altura. No entanto, ventila-se que, se as torres passarem para cem metros, esse potencial de geração poderá dobrar. Não nos esqueçamos da energia solar, pois, somos um país tropical e só a título de exemplo, o estado do Ceará tem 300 dias de sol no ano.

As fontes renováveis têm em comum o fato de terem baixo custo de operação, baixo impacto ambiental e baixo custo de geração (a energia eólica e solar ainda são caras, mas com o aumento de escala, terão preços competitivos). No entanto, esse panorama está mudando. É importante ressaltar que no primeiro leilão de energia eólica finalizado no dia 14/12/09, foram negociados 71 empreendimentos com capacidade total de 1.805,7 megawatts (MW), sendo que o preço médio do MW ficou em R$ 148,39, valor esse 21,5% abaixo do teto fixado pelo Ministério de Minas e Energia. Os destaques do certame foram as empresas Coxilha Negra, que ofertou R$ 131,00/MW para três empreendimentos, e a Renova Energia, a maior vencedora do leilão que comercializou um total de 270 MW de potência instalada distribuída em 14 parques.

O valor ofertado do MW prova de forma irrefutável que, havendo escala, não só a energia eólica como a do bagaço de cana podem competir facilmente com outras fontes de energia, fazendo a complementaridade na geração, dando mais segurança para o parque gerador. Além de serem limpas, soma-se o fato de estas geradoras se situarem perto do consumidor final, o que evita a construção de extensas linhas de transmissão, diminuindo assim os riscos de blecautes, além de diminuir a perda de energia durante o transporte.

O primeiro passo foi dado. Assim, esperamos que em 2010, as autoridades revejam os seus conceitos e, em vez de sujar a nossa matriz energética, incentivem cada vez mais, as fontes limpas e renováveis.

Humberto Viana Guimarães é engenheiro civil e consultor.