Um ano na educação

Claudia Costin, Jornal do Brasil

RIO - Esta época é muito propícia a balanços, e achei uma boa ideia usar este espaço para relatar o percurso seguido em 2009 na Educação. Faço-o em tom pessoal, sem deixar de lado a paixão a alegria de poder ajudar a dar um salto na qualidade da Educação carioca.

Ao receber o convite do prefeito Eduardo Paes para ser secretária de Educação do município do Rio de Janeiro, sabia que tinha um grande desafio: tratava-se da maior rede municipal do Brasil. Além disso, como durante a campanha ocorrera uma discussão sobre a progressão continuada, criou-se um clima interessante para se investir no que mais interessa na Educação: o processo de ensino-aprendizagem.

No primeiro dia de sua administração, o prefeito assinou um decreto acabando com a aprovação automática, o que me colocou basicamente uma tarefa: reforçar a aprendizagem destas crianças. Ninguém gostaria de substituir aprovação automática por reprovação automática.

Montei uma equipe carioca, não importei ninguém e aproveitei talentos que encontrei na própria rede municipal. Iniciamos o trabalho assinando um acordo estabelecendo metas ousadas com o Todos pela Educação. Ao mesmo tempo, enquanto as aulas não começavam, preparamos, em um mês, cadernos do aluno e do professor para fazer uma revisão geral, com toda a rede, do que deveria ter sido aprendido, série a série, em português e matemática. Dia 4 de fevereiro, ao começarem as aulas, iniciamos os 45 dias de revisão.

Realizamos, em seguida, duas provas: uma para identificar analfabetos funcionais de 4º, 5º e 6º anos e outra para saber se havia déficits de aprendizagem que pudessem ser resolvidos com reforço escolar. Infelizmente, identificamos 28 mil analfabetos funcionais e pouco mais de 200 mil alunos que precisavam de reforço.

Em maio começamos a realfabetizar estas crianças, iniciando pelas do 4º e 5º ano. No segundo semestre começamos a realfabetizar as do 6º ano, que prosseguem o processo em 2010.

Para o reforço, recrutamos voluntários e de estagiários. Preparamos cadernos de reforço escolar para cada bimestre, em português e matemática. Mas o salto de qualidade demandava mais um instrumento: orientações curriculares para cada disciplina. Com elas, para cada bimestre, o professor passou a ter uma definição mais clara do que ensinar e recebeu sugestões de atividades e exercícios para desenvolver com o aluno. No final, provas bimestrais unificadas de português e matemática, que nos permitiram aferir não apenas o grau de avanço dos alunos como também os erros mais frequentes, para podermos acertar o rumo no bimestre seguinte.

No término do ano letivo, identificamos alunos que seriam reprovados e quais teriam recuperação e provas de segunda época. Cerca de 45 mil alunos foram reprovados. Estes começam o próximo ano letivo com reforço paralelo.

Aplicamos também uma avaliação externa, a Prova Rio. Com ela pudemos aferir, com outro olhar, quanto nossas crianças de 3º e 7º ano aprenderam. Os resultados foram positivos, especialmente para o 3º ano.

Numa outra frente, preocupou-nos a situação das crianças em áreas violentas. Sabe-se que a aprendizagem é muito prejudicada quando o clima no entorno da escola é pouco saudável. Selecionamos então 150 escolas situadas em áreas controladas pelo narcotráfico ou milícias ou mesmo em áreas recém-pacificadas e adotamos uma abordagem complementar na educação destas crianças e jovens. Criamos assim as Escolas do Amanhã: um programa integrado que procura tornar o ensino mais atraente para estes jovens para que não abandonem a escola e possam ser mantidos mais tempo em situação protegida, fazendo atividades esportivas e artísticas, na escola e nas imediações, no conceito de bairro educador. Em cada uma, além disso, colocamos um laboratório de ciências em cada sala de aula e introduzimos um método de ensino da disciplina centrado em experimentação, com investimento grande em um ensino mais efetivo das ciências naturais.

Na Educação Infantil, firmou-se um compromisso de dobrar as vagas existentes. Mas não bastava expandir. Era fundamental ter um bom modelo de educação para a primeira infância, contemplando as crianças de 3 meses a 5 anos e meio. Criamos o EDI (Espaço de Desenvolvimento Infantil) que atende e educa estas crianças num ambiente adequado a um crescimento saudável e próprio para esta fase tão rica. Ainda no primeiro ano, implantamos quatro creches e os primeiros três EDIs, já na nova abordagem.

Foi um ano de trabalho intenso. É preciso agora persistência estratégica para consolidar muitos dos avanços obtidos e introduzir outros. Mas há algo que já encontrei pronto na rede municipal: um time de professores engajados e comprometidos com a aprendizagem do aluno. E este time é a base do salto na qualidade da Educação!

Claudia Costin é secretária municipal de Educação do Rio de Janeiro.