Falta a política que importa. E exporta

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Entre os principais efeitos da crise econômica mundial, iniciada em 2008 nos Estados Unidos e que se espalhou pelo planeta, está o arrefecimento do volume de transações comerciais entre os países. A temperatura do comércio internacional esfriou bruscamente. No Brasil, o tamanho do impacto da crise sobre a balança comercial de 2009 pôde ser visto com os dados anunciados na segunda-feira pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).

Com o comércio mundial minguado, as exportações brasileiras tiveram a maior queda em relação ao ano anterior, desde 1950, quando se iniciou a série histórica do ministério. O tombo nas vendas externas foi de 22,2% em comparação às exportações de 2008. Até hoje, a maior redução, de 19,8%, havia sido registrada em 1952. O resultado não impediu que a balança comercial continuasse com um saldo positivo pois, com a crise financeira, as importações também sofreram uma queda, de 25,3%, a pior desde 1953 (33,5%) mas levou a balança a apresentar o menor saldo em sete anos.

O superávit de 2009 ficou em US$ 24,615 bilhões. E o que preocupa mais, independentemente dos efeitos da crise, é que esta já é a terceira queda consecutiva. Depois do pico em 2006, quando o saldo positivo chegou a US$ 46,45 bilhões, o maior da série histórica, o superávit só tem caído: passou para US$ 40 bilhões, em 2007, e para US$ 24,96 bilhões, em 2008.

Dois fatores contribuem para este declínio. O primeiro é a forte valorização do real frente ao dólar, o que incentiva as importações e inibe as exportações, encarecendo o produto brasileiro. A segunda razão é a falta de uma política de incentivo às exportações. É preciso que o MDIC e o Ministério da Fazenda trabalhem em conjunto e revejam o sistema de tributação das exportações. A ampliação do chamado regime de drawback que fornece estímulos à importação de matérias-primas de produtos voltados para a exportação é uma medida bem-vinda, assim como o tratamento especial aos setores da economia mais orientados para o comércio exterior. Ambos foram apontados como saídas pelo MDIC. O que ainda é pouco. Mais do que tudo, o país necessita de uma séria política de exportação. É o que tem feito, ao mesmo tempo inteligente e agressivamente, a China.

Especialistas costumam ponderar que mais importante do que ter um superávit comercial elevado é o país exportar muito e, ao mesmo tempo, importar muito. Isso seria um indicador do dinamismo e da força de sua economia, em constante troca comercial e tecnológica. O problema é que tanto o volume de exportações quanto o de importações caíram. Isso mantém a participação brasileira no comércio global no patamar extremamente insatisfatório, ínfimo. Há mais de 30 anos, o país representa ainda apenas 1,2% das transações internacionais. A fatia dos chineses, por exemplo, cresceu de 8% para 10%. O quadro brasileiro só não leva ao pessimismo porque os fundamentos da economia estão sólidos. O país saiu rapidamente da crise. A Bolsa está em alta. À notícia ruim da balança comercial contrapõe-se a força do mercado interno. É de se elogiar as medidas de incentivo do governo. A redução do IPI movimentou a economia e atenuou os efeitos da crise. Mas o mercado interno depende do equílibrio externo para continuar saudável.