A solução é o transporte urbano sobre trilhos

Marcus Quintella, Jornal do Brasil

RIO - Inicialmente, desejo aos leitores do JB um ano novo com muita paz, saúde e felicidade. Neste primeiro artigo de 2010, mais uma vez, vou abordar o assunto do transporte urbano sobre trilhos, que venho defendendo veementemente, neste jornal, desde o meu primeiro artigo, publicado em janeiro de 2004, como solução inquestionável para os problemas de congestionamento e mobilidade urbana nas cidades grandes do país.

Como já disse em outro artigo, a ideia do transporte urbana sobre trilhos é antiga, pois os primeiros bondes surgiram em Nova York, em 1827, e eram puxados por cavalos. Dois anos depois, esse tipo de transporte era utilizado em Paris e Londres. No Brasil, os bondes foram introduzidos, primeiramente, no Rio de Janeiro, em março de 1856, e, cinco meses depois, em São Paulo. Em 1927, a Light, concessionária dos serviços de bonde desde 1900 e de energia elétrica, tinha planos de construir três linhas de metrô em São Paulo, em parceria com a prefeitura. Esse modelo de transporte não era novidade no mundo, uma vez que já existia em Londres, desde 1863, e em Buenos Aires, desde 1913. Lamentavelmente, os políticos da época rejeitaram a proposta da Light, e a primeira linha de metrô do país tornou-se realidade quase 50 anos mais tarde, quando São Paulo já apresentava os primeiros sintomas do caos urbano que vive hoje.

Nessa mesma época, em 1926, sob o lema governar é construir estradas, Washington Luís assumiu o governo construindo duas importantes rodovias, a Rio Petrópolis, que leva o seu nome, e a Rio São Paulo, que leva o nome de outro ex-presidente, Gaspar Dutra. Desde então, a matriz de transportes brasileira vem apresentando um desequilíbrio histórico a favor do modo rodoviário, tanto no transporte de carga como no transporte urbano de passageiros.

Em termos de transporte urbano, especialmente em transporte sobre trilhos, as grandes cidades brasileiras estão engatinhando e precisam, urgentemente, de um plano de longo prazo, eminentemente técnico, com o único objetivo de dotar essas cidades de sistemas de transporte público integrados, abrangentes, energeticamente limpos, operacionalmente eficientes, confortáveis, econômicos e seguros.

Apesar dos pesares, felizmente, o transporte urbano sobre trilhos está ressurgindo na mente dos políticos e governantes como a principal solução para os problemas de mobilidade das grandes cidades. Dessa forma, mesmo que timidamente, diversos projetos de trens urbanos, veículos leves sobre trilhos, metrôs leves e pesados estão sendo planejados ou implantados nas cidades de Recife, Fortaleza, Salvador, Maceió, Brasília, Curitiba, Santos, São Bernardo do Campo, Curitiba e Porto Alegre. Há muito tempo não se veem tantos investimentos públicos em transporte urbano sobre trilhos. Os projetos ainda não são suficientes para resolver os problemas dessas cidades, mas ajudarão bastante e servirão como pontos de partida para a formação de sistemas de transporte urbano integrados e abrangentes, com o transporte metroferroviário ocupando papel de destaque.

Cabe ressaltar que as populações das regiões metropolitanas das maiores cidades do país dependem dos transportes públicos para efetuar seus deslocamentos diários, que, por sua vez, são deficientes, insuficientes, incompetentes, caros, desintegrados e desorganizados. As cidades brasileiras de médios e grandes portes precisam de transportes públicos de qualidade, baseados em abrangentes sistemas metroferroviários, devidamente integrados aos demais modos de transporte.

O transporte urbano sobre trilhos gera benefícios socioeconômicos e ambientais suficientes para superar os investimentos públicos realizados, tais como as reduções de acidentes de trânsito, diminuição dos tempos de viagem, economia de combustíveis, eliminação de congestionamentos, redução das poluições atmosférica e sonora, valorização imobiliária, estruturação urbana, redução dos custos de manutenção das vias urbanas e aumento de arrecadação tributária, além de conforto, segurança, tranquilidade e qualidade de vida.

Marcus Quintella é engenheiro.