Agora a campanha já pode começar

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Primeiro foi a decisão do governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), de retirar sua candidatura à Presidência. E ontem, ainda que informalmente, durante um café da manhã com jornalistas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desceu do muro e falou abertamente sobre a candidatura de Dilma Rousseff, dando alguns indícios, inclusive, do que pretende fazer em relação a ela. A campanha eleitoral, pois, já pode começar.

Tudo bem, que é preciso respeitar os prazos da lei, mas se há uma clara polarização na campanha e se os candidatos já estão definidos, soará agora como hipocrisia qualquer fuga, tanto da situação quanto da oposição, com relação ao assunto sucessão de Lula. É bom para o eleitorado que se inicie quanto mais cedo possível o debate de ideias, até para que haja mais tempo para a tomada da melhor decisão na hora de apertar os botões da urna eletrônica.

Hábil com a palavra e com os discursos, Lula diz que Dilma terá autonomia para conduzir seu caminho em 2010, e cita como comprovante disso o fato de que não quer nem estar por perto quando se der a escolha do candidato à Vice-Presidência, que deve vir do PMDB até porque este não causaria surpresa se mudasse de banda unindo-se ao PSDB, caso não tenha suas postulações atendidas pelo governo.

Mas nem Lula conseguirá deixar de se intrometer, e correr o risco de ver sua altíssima popularidade reduzir-se a pó com uma derrota para os tucanos, nem Dilma quer que isso aconteça. Ela conhece o suficiente de política para saber que o capital eleitoral de Lula não se dispensa nem em caso grave de insanidade.

Assim, o presidente age e anuncia que sua candidata continuará viajando para inaugurar obras, respaldada, segundo ele, por sua condição de ministra e uma das coordenadoras do PAC. Ou seja, ela não vai parar de percorrer o país: até março, como ministra, depois como candidata.

Outra mostra de que o presidente não vai deixar sua própria sucessão ao deus-dará foi a afirmação de que vai conversar com Ciro Gomes, caso este mantenha sua determinação de concorrer à Presidência. Lula está cauteloso, pois sabe que Ciro é aliado de primeira hora e tem peso para, se não decidir uma eleição, angariar muitos votos para Dilma. Vai esperar até o último instante e rezar para que Ciro desista da isolada empreitada. Está farto de saber Lula que a esquerda dividida é um fator que pode ajudar muito a candidatura José Serra, que não tem muito para onde correr na área dos projetos de governo não pode, estrategicamente, propor uma mudança radical de rumos em relação ao atual (e aprovado pela população) governo do PT.

Lula não falou, no encontro de ontem, sobre como vai agir com relação à provável candidatura de Marina Silva (PV). Deveria, pois é um nome que, se ainda não ameaça, pelo menos ganha corpo nesta era de discussão do meio ambiente, e será, sem dúvida, caso siga adiante na luta pela Presidência, uma pedra bem incômoda no sapato de salto de Dilma.

A saída de Aécio e a entrevista de Lula fazem, pois, com que o ano de 2010 comece com pista absolutamente livre e liberação da torre de controle para que as discussões e debates para a eleição possam decolar o quanto antes. Vamos a eles.