O povo quer sair da promessa

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - É muito tempo, que significa perda de vidas e de dinheiro. É preciso um PAC para o PAC

Uma das máximas recorrentes na política brasileira é que saneamento básico não dá voto. Por que um prefeito, um governador ou qualquer outro detentor de cargo público gastaria tempo e dinheiro investindo em obras que, afinal, lhes proporcionam baixo retorno eleitoral? Manilhas enterradas a sete palmos do chão, redes de esgoto e estações de tratamento não são tão visíveis para a população quanto pontes, viadutos, escolas, hospitais. E ainda têm o grave inconveniente de não poderem ser batizadas com o nome de um parente ou integrante do grupo político do benfeitor. Ou seja, o crédito pela realização da obra se esvai literalmente pelo ralo. Por essas razões, saneamento sempre foi considerado, por excelência, a política pública do antimarketing eleitoral. No entanto, nada impede que, durante as campanhas, o assunto sempre apareça em destaque, fazendo parte daquelas promessas que quase certamente não serão cumpridas.

Nas telas do cinema brasileiro, o problema até inspirou uma visão crítica e bem humorada no criativo longa-metragem Saneamento básico, o filme, de Jorge Furtado. Ao reivindicarem uma fossa para tratamento de esgoto como a prioridade da comunidade, habitantes de um pequeno vilarejo ouvem da prefeitura que não há mais verbas para o setor. A única saída encontrada passa a ser, então, aproveitar os recursos disponíveis para a produção de um vídeo de baixo orçamento. Só assim, fazendo um filme que requer a construção da fossa, em torno da qual contarão uma história surreal, é que os moradores alcançam seu objetivo.

Quando se sai do mundo da ficção para a realidade, porém, seria cômico se não fosse trágico. Como resultado dessa cultura de anos e anos, em que o saneamento básico foi relegado na pauta de prioridades dos governos, o Brasil está hoje entre as nações com os piores indicadores do setor. É o sétimo lugar, por exemplo, no ranking dos países com maior população sem banheiro. São 18 milhões de pessoas que não têm acesso sequer a simples fossas.

O descaso é histórico. A ponto de fazer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva propalar aos quatro ventos, num momento de exaltação, durante discurso recente, que pretende tirar o povo da merda . Lula referia-se aos pesados investimentos cerca de R$ 40 bilhões previstos para saneamento no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). No entanto, pelo ritmo moroso com que as obras estão em andamento, e pelo tamanho da empreitada, a tarefa de retirada será dividida com seus sucessores ou sucessoras. O Ministério das Cidades, conforme mostrou ontem matéria do Jornal do Brasil, prevê, num cenário superotimista, que só em 22 anos o Brasil conseguirá universalizar o saneamento. Especialistas consultados pelo jornal, porém, afirmam serem necessários 27 anos, mas também num cenário muito favorável, que leva em consideração um investimento anual de ao menos R$ 10 bilhões por ano. O valor que tem sido investido, contudo, é de R$ 4,5 bilhões e, neste ritmo, o povo levará 60 anos até sair da promessa.

É muito tempo, o que significa perda de vidas e de dinheiro. Calcula-se que para cada real gasto em saneamento, economizam-se quatro com o sistema de saúde. É preciso correr. É preciso um programa de aceleração para o PAC.