Os médicos também são vítimas

Luís Fernando Moraes , Jornal do Brasil

RIO - É consenso que todos nós, médicos ou não, estamos cada vez mais expostos à crescente violência que atinge as principais cidades do país. Não há mais o local ermo ou o horário crítico para se evitar a fim de não correr riscos desnecessários. Esta nova dinâmica também repercutiu nas unidades de saúde do Estado do Rio de Janeiro. Se a atuação dos médicos era antes respeitada pelos criminosos, hoje eles são reféns em potencial. Não faltam relatos de sequestros de ambulâncias e de profissionais para atendimento de feridos em confrontos, de invasões a hospitais para execução de rivais ou de resgates de pacientes custodiados feitos por bandidos fortemente armados.

Nos últimos anos, uma série de episódios de violência contra médicos e hospitais dominou o noticiário. As balas perdidas atingem com tanta frequência os hospitais próximos a áreas de conflito como o Bonsucesso, o Andaraí e o Getúlio Vargas que surgiram boatos de que algumas unidades seriam blindadas pelo Ministério da Saúde. Há quase um ano, o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro Cremerj - denunciou às autoridades que traficantes praticavam atos de violência dentro do Hospital Orêncio de Freitas, em Niterói. Aterrorizados, médicos, funcionários e pacientes denunciavam que traficantes circulavam livremente pela unidade e cometiam sequestros-relâmpagos e assaltos no estacionamento, nos corredores e até na cozinha do hospital, que é considerado referência na formação de cirurgiões.

Medidas extremas já foram tomadas por conta da guerra urbana. A violência forçou a desativação do Instituto Estadual de Infectologia São Sebastião, que ficava no Caju, por exemplo. Desde o seu fechamento em 2008, o Rio não conta com um hospital referência em tratamento de doenças infecciosas. Isto mostra que a maior prejudicada pela violência e pela falta de presença do Estado é a própria população.

Nos deslocamentos para os plantões, muitas vezes em horários de pouco movimento nas ruas, os médicos correm riscos. Um dos casos mais recentes é o do pediatra que foi baleado ao sofrer tentativa de sequestro-relâmpago, quando saída do plantão na UPA de Belford Roxo. Trabalhar diretamente com o público também é complicado. Ameaças de morte para forçar atendimento também são rotineiras nas emergências superlotadas. Médicos peritos também reclamam da violência a que estão expostos nas unidades da Previdência Social. São constantes os casos de agressão por parte dos pacientes insatisfeitos, que querem manter a licença médica a qualquer custo. Cadeiras e mesas dos consultórios foram pregadas no chão para evitar que sejam usadas como armas.

Por conta desta total falta de segurança, reduz a cada ano o número de jovens médicos que aderem às chamadas para integrar equipes na linha de frente - serviços de urgência e emergência - de unidades de saúde localizadas em áreas mais críticas. Esta evasão, a médio prazo, será refletida na dificuldade de formar equipes na rede pública de saúde. E quem vai sofrer de imediato é a comunidade, já vítima do descaso das autoridades.

Esta atitude dos médicos é uma medida de autodefesa. Não se pode condenar um cidadão que abre mão da possibilidade de salvar vidas, para proteger a sua integridade física. É do Estado a obrigação de investir em ações para conter a violência, além de preservar e proteger as unidades de saúde. Os profissionais que atuam nestas unidades precisam de garantias para prosseguir com seu trabalho com tranquilidade. Não podemos ser reféns deste sistema que expõe o médico e o isola em supostas zonas de segurança bem afastadas das pessoas que mais precisam de atendimento e acompanhamento na saúde pública. Somente uma mudança de paradigma, com investimento em saúde básica, em educação e em esportes, poderá modificar o status quo. É preciso acenar para a população com a possibilidade de ascensão e de inclusão social e não apenas repressão policial.

Luís Fernando Moraes é presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro Cremerj.