Desarmamento na ordem do dia

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - A cada pesquisa sobre segurança pública ou violência urbana, feita por seja lá qual órgão for, os dados tornam-se mais assustadores e mostram à população do Rio quão exposta ela está à ação dos criminosos e à pouca proteção que a polícia é capaz de lhe oferecer. A bola da vez é o levantamento feito pelo Sindicato dos Médicos, divulgado ontem neste JB. O que poderia ser um dado positivo, a redução dos atendimentos de emergência para feridos a bala, é, de fato, mais alarmante: os feridos diminuíram, tal é a letalidade dos novos armamentos que os atingidos estão morrendo no local onde a bala os encontra.

O drama aumenta quando cruzamos a pesquisa acima com outro relatório, este elaborado pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), com informações sobre o primeiro semestre do ano em curso. Ele mostra que do total de homicídios dolosos (com intenção) registrados no período, 71% foram produzidos com armas de fogo.

Além dos números mais frios, a cada dia o país se choca com uma nova tragédia na vida real provocada por armas de fogo. Como a morte do menino Rogério Mendonça, de 2 anos, atingido no pescoço por um tiro disparado pelo jornalista Agnaldo Ferreira Gonçalves, de 60 anos, contra o carro onde o menor estava, após uma briga de trânsito em Campo Grande (MS).

A luta dos que tentam colocar o desarmamento da população na ordem do dia tem sido inglória. Além da complexidade do tema, e do cuidado que é preciso ser tomado numa questão de tal modo delicada, talvez o foco dos proponentes ajude a enterrar as chances de se desarmar o país.

A questão é que a população não vê a mesma rapidez e eficácia no combate ao arsenal dos bandidos como no ato de fazer propostas ou ações para desarmar os cidadãos comuns e é justamente por estes que sempre se propõe começar. Essa discrepância tira os argumentos dos que sofrem com aquela máxima que todos nós já ouvimos algum dia: Ah, mas se obrigarmos a população a devolver suas armas, estaremos facilitando o trabalho para os criminosos .

Essa visão só vai mudar quando as autoridades transformarem a guerra às armas numa política de Estado. Na linha do Fome Zero, deveria ser criado e implementado o Arma Zero. E o começo da ação repressiva, com força total, deve ser sobre os fornecedores de armamento aquele, o cada vez mais letal , para secar a fonte dos transgressores.

Para isso é preciso, para início de conversa, dar condições de salário e trabalho dignas aos policiais (civis e militares) e às Forças Armadas. Pois hoje, da maneira como estamos, colocar esses profissionais com salários muito abaixo do suficiente para uma vida decente para fiscalizar as fronteiras (por onde entram os instrumentos de morte com suas munições) é quase como enxugar gelo ou colocar a raposa para vigiar o galinheiro.

Se conseguirmos fechar essa torneira, por mais que os morros do Rio sejam hoje verdadeiros paióis, um dia a munição vai acabar. Quando isso acontecer, as armas virarão apenas peças macabras de decoração. E certamente as estatísticas sobre violência urbana serão bem menos dramáticas, na melhor das hipóteses com a volta aos tempos em que a turma do deixa disso resolvia as brigas de trânsito. E, na pior, com as pessoas feridas a tiros tendo a chance de escapar da morte indo ao hospital.