Só a conciliação trará os avanços

Rio, Jornal do Brasil

EDITORIAL - Ontem, mais uma vez, o presidente da Comissão de Meio Ambiente da Câmara, deputado Roberto Rocha (PSDB-MA), teve de suspender, por falta de quorum e de entendimento, a sessão na qual seria votado o projeto de lei que trata de modificações no Código Florestal. Foi a 23ª vez que se levou o tema à pauta em vão. As alterações no Código Florestal em vigor são negociadas há nada menos que quatro anos.

Para avançar na questão e acabar com essa enfadonha queda de braço entre as alas mais intransigentes dos ambientalistas e dos ruralistas não deveria ser necessário tamanho desperdício de tempo. Bastava que cada um dos grupos deixasse de grudar uma lupa sob seu ponto de vista particular, e passasse a entender a resolução da questão como um espelho do que são quase todas as soluções na vida: conciliando interesses, cedendo aqui e ali, procurando satisfazer a maior parte dos envolvidos.

Com o radicalismo que se coloca hoje sobre a mesa, o caminho natural é o impasse pior, nesse caso, para os ruralistas, que têm pressa em alterar a legislação porque a partir de 11 de dezembro passam a valer as sanções aos produtores que estiverem em desconformidade com a lei.

Entra reunião, sai reunião e o discurso não muda. Os ruralistas, que têm menos marketing, juram que só querem espaço para produzir os grãos que impedirão a fome no planeta, e acusam os oponentes de quererem transformar o interior do Brasil em uma grande Amazônia tombada (aqui no sentido de intocada).

Já os ambientalistas, que são mais barulhentos e vendem seu peixe melhor, dizem que é preciso manter intacto o pulmão da Terra, acusando os rivais de não passarem de selvagens capitalistas que só têm olhos para o lucro que grãos e gado trarão por cima das florestas mortas.

O que seria mais engraçado se não envolvesse uma questão tão séria é que os dois grupos se acusam de, na surdina, representarem escusos interesses internacionais. O grupo das ONGs diz que os pecuaristas e agricultores são testas de ferro dos que pretendem tirar a soberania do Brasil sobre a Amazônia. E os produtores afirmam que os verdes têm por trás de si grupos que temem que o país se torne uma potência agrícola. A intransigência mútua torna vazios todos os argumentos de cada lado.

Não são precisos grandes ou complexos estudos para perceber que tanto o meio ambiente quanto a agricultura e o comércio exterior são importantes demais para que o Brasil abra mão de um deles. Os tais grandes e complexos estudos e pesquisas vão surgir justamente para que se saiba como conciliar todas as variáveis do problema. Mas, antes disso, é preciso que os líderes desses setores tenham a grandeza de pensar primeiro no Brasil, e esquecer o próprio umbigo.

Se o restante do mundo já não vê o Brasil como antes hoje somos admitidos como um dos principais players da vida mundial é preciso que os brasileiros façam o mesmo. E entendam que é perfeitamente possível e tem de ser mesmo conciliar preservação do meio ambiente com desenvolvimento do agrobusiness. Se a questão continuar a ser conduzida como uma rinha pessoal, não haverá vencedores. O único vencedor tem de ser o Brasil, e só o será com a conciliação entre seus filhos. E esta só não vem se não quiserem.