Raízes monetárias

Carlos Max , Jornal do Brasil

RIO - Muitas coisas em economia funcionam de maneira intuitiva: se há uma mercadoria que pouca gente quer comprar, os vendedores baixam o preço; se tem um produto que subitamente se torna muito desejado, os vendedores aumentam o preço. No mercado de câmbio, as coisas não são muito diferentes disso.

Há pouco mais de um ano, o mercado financeiro americano capotou, trazendo a memória da Grande Depressão dos anos 30.

O governo e o Banco Central de lá rapidamente abriram o cofrinho dos contribuintes para proteger a livre iniciativa (proteger de quem mesmo?), impedindo que virassem pó algumas empresas consideradas grandes demais para falir .

O curioso é que, apesar de a crise ter seu epicentro no sistema financeiro do país que emite dólar, a manada no resto do mundo pensou mais ou menos assim: já que o céu pode cair sobre nossas cabeças, vamos colocar nossas poupanças sob um guarda-chuva seguro. E nada lhe pareceu mais seguro do que títulos do governo americano.

O detalhe diabólico é que, para comprar títulos do governo norte-americano, você precisa primeiro comprar dólares dos EUA, e quando um produto subitamente se torna muito desejado... Bem, o preço do dólar subiu. Mas, logo depois da explosão inicial, a manada percebeu que o céu (ainda) não caíra sobre as suas cabeças. Leviandade? Bem, pense nas criancinhas que, após bombardeio cirúrgico em Bagdá, ou de um tiroteio entre traficantes e policiais no Rio, saem de casa para, mansamente, jogar bola na rua.

É a vida, e não há muito o que se possa fazer. Mas, quando as criancinhas saíram de casa para jogar bola depois do estouro da bolha financeira, encontraram na rua mais alguns trilhões de dólares em relação ao que havia antes da crise.

Quando isso acontece, os investidores estrangeiros procuram mercados onde seus recursos possam ser mais bem remunerados.

Alguns países emergentes são interessantes nesta ocasião, especialmente aqueles com praias lindas, mais de US$ 230 bilhões de reservas internacionais, juros atraentes, copa do mundo, olimpíada, pré-sal etc.

Neste mercado emergente em particular, eles os investidores estrangeiros precisam trocar seus dólares pela moeda local, e aí retornamos ao início do texto: se tem uma mercadoria que pouca gente quer comprar, os vendedores abaixam o preço.

No caso do dólar, se o preço cai, o valor das outras moedas aumenta. No nosso caso particular, isso faz com que o real se valorize: as exportações perdem competitividade, porque cada dólar exportado traz para o exportador um volume menor de reais; e as importações ficam mais baratas, porque o importador precisa de menos reais para cada dólar que paga a importação.

Os consumidores, em geral, ficam felizes, pois os produtos importados ficam mais acessíveis. Alguns, porém, ficam tristes, especialmente os que foram demitidos quando a empresa em que trabalhavam quebrou, seja por não conseguir mais exportar suas mercadorias, ou por não poder concorrer com produtos importados.

O que fazer? Lamentar o excesso de notícias boas? Rezar para que algum evento climático extremo (ou seu equivalente no Congresso) afaste os investidores estrangeiros do país? Permitir que o vampiro do capital especulativo estrangeiro consiga finalmente administrar o banco de sangue onde guardamos nossos recursos? É conversa mais longa do que nosso encontro de hoje permite.

Carlos Max é especialista em economia da Academia Brasileira de Educação, Cultura e Empregabilidade (Abece)