Contra o HPV, o diálogo entre mãe e filha

Cecilia M. Roteli-Martins, Jornal do Brasil

RIO - Quando iniciamos os estudos clínicos para a vacina contra o HPV, com voluntárias no Hospital Leonor Mendes de Barros, em São Paulo, em 2000, eu não poderia imaginar que quase oito anos depois estaria protegendo minha própria filha de uma doença sexualmente transmissível que, quando não detectada a tempo, pode levar ao câncer.

Muitas pessoas ainda desconhecem essa informação, mas o câncer do colo do útero, o segundo tipo de câncer que mais mata mulheres no país, é causado por um vírus o HPV. Não é um câncer com predisposição hereditária ou desenvolvido sem explicação pelo organismo. A causa vem da infecção por um vírus, transmitido na maioria das vezes no contato sexual.

Então fica a pergunta: Por que esse câncer existe então?

Recentes pesquisas indicam que 65% das mulheres são contaminadas pelo HPV logo no primeiro contato sexual. Em estudo de acompanhamento realizado com adolescentes e mulheres de 13 a 21 anos de idade, somente 40% permaneceram sem infecção por HPV durante um período de 3 anos.

Em pleno século 21, quando a informação está ao alcance de todos no território livre da internet, como essa doença pode continuar a existir? Será falta de informação ou falta de diálogo entre mães e filhas? Será que falar sobre sexo e prevenção ainda é uma barreira?

Já está disponível no Brasil uma vacina capaz de proteger as jovens contra os cinco tipos de HPV que mais causam o câncer do colo do útero conhecidos como oncogênicos. Além de conversar com sua filha sobre o HPV e o que ele pode causar, é preciso também protegê-la. Mas para que essa proteção seja feita, precisa antes do diálogo, da abertura, da cumplicidade.

Nesse início da vida sexual, as jovens têm muitas dúvidas e perguntas. É importante que as mães procurem dar às suas filhas sempre as melhores respostas, aproveitando para o estreitamento deste vínculo. Um grande problema nessa fase é quando a jovem recebe informações inadequadas, que acabam por aumentar sua confusão e ansiedade.

Quando falamos especificamente sobre o HPV, as dúvidas mais frequentes estão relacionadas sobre as formas de contágio (como e quando é a contaminação?), as formas de prevenção e também as consequências da infecção. É importante explicar para as adolescentes que a infecção por HPV não indica que ela está com câncer, mas que, neste caso, ela precisa de tratamento adequado.

Como ginecologista, sempre que indico a vacina para HPV tenho a possibilidade de esclarecer e informar tanto as mães quanto as pré-adolescentes e adolescentes. Muitas vezes, tenho a chance de reforçar o diálogo entre elas. Quanto mais aberta e franca esta relação mãe-filha ou pai-filha, em alguns casos mais fácil torna-se a possibilidade de evitar não só a infecção por HPV, como também outras doenças sexualmente transmissíveis.

Entendo as limitações do conhecimento sobre este tema, também sou mãe e nunca sabemos tudo... Mas os pais ou os responsáveis pelas adolescentes podem, junto com elas, buscar informações com profissionais de saúde que tenham conhecimento sobre este tema.

O diálogo é o primeiro passo para tudo!

Cecilia M. Roteli-Martins é doutora em Medicina pela Unicamp, pesquisadora do Hospital Leonor Mendes de Barros, da Secretaria de Saúde de São Paulo.