Temperatura que esquenta

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - O clima está esquentando. E não se trata apenas do aquecimento global. A quase um mês da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15), em Copenhague, na Dinamarca, governos, empresários e sociedade civil chegam à reta final da elaboração das propostas que podem representar uma guinada rumo à sustentabilidade do planeta. Com a COP-15, é chegada a hora de se substituir e avançar em relação ao Protocolo de Kyoto, de 1997, e que expira em 2012.

Na conferência de Copenhague, os 192 países da Organização das Nações Unidas (ONU) buscarão um novo acordo mundial para reduzir as emissões de gases causadores de efeito estufa, principais vilões pelas alterações do clima na Terra.

Como destacado na capa de ontem do Jornal do Brasil, crescem as pressões da ONU sobre os Estados Unidos para que o país assuma metas mais ousadas de redução de suas emissões até 2020. A pressão também foi feita por países da União Europeia e ocorreu no primeiro dia de reuniões entre emissários de 180 nações que buscam estabelecer acordos prévios para que a conferência na Dinamarca não seja um fracasso.

A comunidade internacional está preocupada. E tem razões para isso. Há um mês e meio, foi decepcionante o resultado do encontro sobre o clima na sede da ONU, em Nova York. Ali, ficou patente a falta de compromisso dos dois maiores poluidores do planeta, Estados Unidos e China. O presidente Barack Obama, cuja eleição foi saudada pelo que poderia trazer de bons ares, jogou na retranca e preferiu fazer o velho jogo de empurra. Disse que o problema ambiental é responsabilidade de todos os países, ricos e pobres, como se não houvesse maiores diferenças nos níveis de emissão entre eles. Junto com os chineses, os americanos respondem por 40% do CO2do planeta.

A esperança é que, de lá para cá, o presidente americano tenha tomado mais coragem e possa se reabilitar. Há quem acredite que Obama não queira repetir os erros das administrações anteriores. Bill Clinton assinou o acordo de Kyoto, mas não conseguiu fazer o tratado ser ratificado no Senado. O ex-presidente George Bush alegou que o protocolo firmado no Japão custaria empregos a seu país e que o texto não definia metas para países em desenvolvimento como a China e Índia. Obama já usou estas mesmas desculpas de Bush.

Seu argumento, durante a reunião de setembro, era de que os efeitos da crise econômica mundial seriam um empecilho para a costura de um acordo auspicioso em Copenhague. Em meio à recessão, afirmou o presidente americano, os países irão priorizar a revitalização de suas economias, à custa de avanços ambientais. Isso não faz mais sentido agora, até para os Estados Unidos, depois dos resultados apresentados na última semana, que mostraram a recuperação da economia americana.

Quanto aos países em desenvolvimento é preciso achar uma solução para o impasse relativo às compensações financeiras que eles devem receber das nações desenvolvidas para que cumpram sua metas. E que as cumpram. O Brasil cuja proposta global para a COP-15 seria anunciada ontem mas foi adiada para o dia 14 já estabeleceu que reduzirá o desmatamento da Amazônia em 80% até 2020. Que os maiores poluidores também deem sua contribuição.