Ventos levam para longe da crise

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - O efeito da crise deflagrada pela derrocada retumbante de parte da economia americana, no ano passado, está sendo menor do que muitos poderiam esperar. Além de os EUA terem reagido, com um crescimento no PIB depois de períodos longos de retração, o comportamento do cenário econômico brasileiro igualmente foi menos permeável à fragilidade das instituições de controle financeiro de Washington. Lá, os bancos não estão vinculados a uma convenção internacional que de certa forma blinda empresas de outros países de problemas em série quando o capital começa a transformar-se em fumaça. No Brasil, manobras inteligentes puderam dar algum fôlego para que se pudessem driblar os efeitos ou desarmar armadilhas referentes a algumas vinculações. Dado o bom desempenho do país em termos econômicos, pudemos atravessar o Rubicão sem espirrar porque os EUA arrumaram uma gripe.

Os sinais da reestabilização estão por toda a parte. O aumento de 7% na oferta de vagas de empregos temporários, conforme revelado pela edição de ontem do JB, é um deles. Mesmo cientes de que o período natalino é o que faz com que o comércio e outros setores façam um colchão para enfrentar a maré baixa de janeiro e fevereiro, ampliar as vagas de funcionários que trabalharão apenas neste período é uma demonstração evidente de que os setores econômicos estão com confiança suficiente para investir na contratação. Ao todo, serão 120 mil as vagas por todo o país, a maioria no comércio. Outro dado importantíssimo está também na avaliação de que, desses contratados temporários, 17% vão continuar empregados. É menos do que se registrou em 2008, quando 28% foram efetivados. A diferença, entretanto, não deve ser considerada um sinal de fragilidade, mas apenas uma primeira avaliação. Normalmente, a reação especialmente do comércio supera sempre as expectativas perto do Natal, com as compras de última hora sustentando o ímpeto e o desempenho. Rio e São Paulo lideram nessa estatística. Pelo menos no caso da Cidade Maravilhosa, o potencial turístico faz com que a elevação de vendas se estenda sustentada pelo atrativo do Réveillon.

Há que se ressaltar que o cenário é promissor mas poderia ser melhor. Quem emprega sabe como é difícil criar um novo posto de trabalho nas empresas, dada a burocracia e os custos envolvidos. No caso da pesquisa citada pela reportagem, uma das empresas consultadas havia reservado 27% das vagas temporárias para jovens que tentam entrar no mercado de trabalho. Seria bem mais atraente para quem lida com a montanha de exigências para as contratações se houvesse uma flexibilização nesse processo. Empregar alguém deveria ser tão fácil quanto comprar pão na esquina. Geração de postos de trabalho é o que faz com que um país possa crescer efetivamente.

É importante que o ritmo de investimentos seja mantido. Se o comércio e outros setores acreditaram que há espaço para proporcionar mais chances de inserção de cidadãos na vida econômica, o setor público também deve manter o cronograma e continuar aplicando recursos especialmente em projetos que tragam mais gente para fazer parte e impulsionar a roda da fortuna. Na outra ponta desse fio está a educação, outra parte essencial a ser cuidada de forma a permitir que os desafios da modernidade sejam suplantados. De qualquer forma, o vento da esperança soprado pelos empregos temporários ajuda a mover o barco para longe da crise.