Governos são muito levianos com os artistas

Jorge Salomão *, Jornal do Brasil

RIO - Há menos de um mês, escrevi para uma revista um artigo sobre os últimos trabalhos feito pelo magistral artista Hélio Oiticica, que começava assim: Ele não era fácil. Inteligência rápida, igual a uma flecha disparada para o alvo almejado, cheio de humor, precisão, rigor e tremendo savoir faire para enfrentar e se deliciar com as dificuldades cotidianas. Oiticica era uma artista no sentido maior da linguagem. Nunca se sujeitando às babaquices do chamado mercado de arte e detonando sempre contra as caretices, seja do Rio, de Nova York, onde for. Hélio era uma brasa acesa, um vulcão em erupção .

Ouvi falar do Hélio Oiticica pela primeira vez numa bienal de artes plásticas na Bahia logo depois que os militares tomaram o poder em 1964 e lançaram uma lobotomização da sociedade brasileira. O trabalho era sensacional e pude sentir passeando pelos suspensos bólides uma atmosfera de extrema liberdade criativa. Os anos se passaram. Soube da explosão da exposição Tropicália no MAM, do surgimento dos parangolés. Sentia no Hélio uma agitação maravilhosa que sempre me fascinou. Eram bombas luminosas que ele lançava num momento de tanta obscuridade. Conheci-o finalmente quando ele fez uma ambientação para um show da Gal Costa na boite Sucata. Gostei de cara. Hélio adorava desafiar as pessoas e espalhar um grande fascínio. Eram os anos de chumbo grosso. Eu era nômade, não tinha lugar para morar, Waly também. E logo estávamos todos morando na casa da rua Alfredo Duarte a convite do Hélio numa época em que as pessoas denunciavam as outras sem qualquer pudor. A casa/estúdio andava sempre cheia: artistas, vedetes, jornalistas, personalidades, pessoas interessantes, o pessoal da Mangueira. Coincidindo com a chegada da exposição de H.O. da Tate Galery em Londres e Hélio fazendo a capa do disco Legal da Gal Costa, a casa era uma festa só. Tempos bons, de exercícios criativos numa época de extrema estupidez causada pelo AI-5 oprimindo a cultura de um modo altamente castrador. Hélio era um desafio o tempo todo. Sua presença era demolidora e ele gostava de pessoas com o mesmo pique. Hélio nos deu (a mim e Waly) e depois a Omar, nosso irmão caçula, em Nova York, uma bela ideia de solidariedade, de liberdade e revolução.

Por toda essa convivência de anos, fiquei e ainda estou catatônico com a perda de um acervo tão precioso. Não consegui dar uma palavra durante horas e tenho pensado sem parar no assunto. Sinto que os governos são muito levianos com os artistas vivos. Quando mortos, os governantes também fazem pouco para a preservação da obra de qualquer artista. A cultura de um modo geral é sempre colocada de lado e sai ganhando a burocracia, a mediocridade. Fazer o quê? Sair culpando isso ou aquilo? Não dá... Gritar, silenciar, fazer o quê? Creio que frente a uma fatalidade tão grave como a que aconteceu com a obra de Hélio é importante pensar numa integração mais aberta entre as partes; no caso, os herdeiros e os órgãos competentes para que o trabalho tão construtivo dos artistas se apague no tempo. Como uma fênix que renasce das cinzas : viva Hélio Oiticica!

* escritor e agitador cultural