Entre a soberba e a modéstia

Alvaro Costa e Silva *, Jornal do Brasil

RIO - Eu vi os dois lados da medalha: o 6 a 0 do Botafogo no Flamengo e o 6 a 0 do Flamengo no Botafogo. Já distantes no tempo a goleada inaugural é de 1972; o troco, de 1981 os dois jogos inacreditáveis ainda balizam e alimentam a rivalidade entre os dois clubes, que nos últimos anos voltou a esquentar e hoje, no Engenhão, vive mais um capítulo de saga.

Alvinegro forjado na Geração Bi-Bi duas Taças Guanabara e dois Estaduais em 67 e 68, o time da linha de frente mágica formada por Rogério Bailarino, Roberto Miranda, Gerson, Jairzinho e Paulo César Lima (só depois Caju) compareci encapotado e encapuzado ao Maracanã, na companhia do primo Ciro, naquele 15 de novembro, feriado nacional e aniversário deles. Chovia muito. E o estádio pegou um público pequeno para a importância do clássico, válido pelo Campeonato Brasileiro. Como na final da Copa de 50, depois da qual todo uruguaio passou a dizer que estivera presente ao Maracanazo, muitos botafoguenses garantem que lá estiveram. Mas na verdade eram bem poucos os nossos nas arquibancadas nem do outro lado se via muita gente.

Por estranha razão, não entrei pela estátua do Bellini, e sim pelo monumento do Médici. Presságios da farra? De todos os gols, guardo lembrança mais nítida dos dois do argentino Fischer, El Lobo, no primeiro tempo. Jair Ventura Filho marcou três vezes, uma das quais, para Sérgio Augusto, autor do livro Botafogo: entre o céu e o inferno, merecia um bronze de Bernini (por favor, não confundir com Bellini): é o de letra. Aqui confesso: distraído pelo pregão do cara do cachorro Geneal, perdi o lance do gol. Estava tão fácil... Antecipei o sexto assim que a voz da Suderj anunciou a entrada de desengonçado Ferreti. O único senão foi não ter saído um gol de Marinho Chagas, o Diabo Louro foi o melhor em campo. Aquele jogo bem que poderia ter sido 7 a 0.

Nove anos depois, estava eu outra vez no maior do mundo. O clima era outro, usava camiseta e bermuda, e a torcida, mesmo antes de a bolar rolar, era para não perder de muito. Depois do passeio que levamos no primeiro tempo 4 a 0, um deles de Zico, o maior responsável pela inversão da freguesia rubro-negra só restava esperar a tragédia anunciada perambulando pelo anel superior do estádio, entre goles de cerveja morna é, naquele tempo, era permitido beber no Maraca e não havia tanta briga entre marginais uniformizados. Após o quinto baque Zico, onipresente Zico desci para esperar a sagração da vingança, que cabalisticamente saiu dos pés do camisa 6, Andrade, num tirambaço de fora da área. Aqui confesso de novo: chorei. E, quando os alvinegros em debandada passavam por mim e diziam: Não fica assim não, garoto, isso é futebol , mais lágrimas caíam. Peguei a pé o caminho da casa do meu pai tricolor, na Muda, e lá recolhi minha tristeza e chororô.

A partir das 18h30, um horário antipático para as práticas, Botafogo e Flamengo vão duelar mais uma vez. Como sempre, há fortes ingredientes: de um lado, a tentativa de entrar no grupo que classifica para a Libertadores e, soberbamente, manter a ilusão de ser campeão; do outro, a luta desesperada por fugir ao rebaixamento e, modestamente, permanecer no lugar que é seu de direito. Vem cá, chega pertinho, para ninguém ouvir: 1 a 0 neles hoje vai ter gosto de 6.

* editor do Ideias & Livros