Novos caminhos

Luiz Paulo Corrêa e Castro *, Jornal do Brasil

RIO - Desde o começo dos anos 1990, torna-se comum no Rio o surgimento de movimentos destinados a criar acesso à arte e à cultura nas favelas e bairros da periferia. Graças a essas iniciativas, milhares de crianças, jovens e adultos passaram a ter acesso a informações e formação profissional em diversas áreas artísticas. Milhares de pessoas que, no seu cotidiano, não têm acesso aos bens de produção cultural passaram a ter oportunidade, através da arte, de ver seus horizontes ampliados e de se tornarem cidadãos mais plenos e conscientes dos seus direitos e deveres.

O Nós do Morro, fundado em 1986, é um projeto pioneiro, marcando a sua trajetória com a idéia de fazer arte com, e para, a comunidade. Ao longo dos seus 23 anos, já passaram pelos cursos e oficinas do grupo mais de 2 mil crianças, adolescentes e adultos, moradores da comunidade ou não. Parte deles, hoje, se encontra inserida no mercado profissional do teatro, televisão e cinema e consegue sobreviver como artista ou técnico.

Neste período outros movimentos culturais originados dentro de comunidades foram criados e começam a ganhar espaço na mídia e na sociedade, como o Grupo Cultural Afroreggae, de Vigário Geral; a Cia Étnica de Dança, no Morro do Andaraí; a Central Única de Favelas (Cufa), na Cidade de Deus; e o Nós do Cinema, na Favela da Maré.

Esses movimentos criaram uma espécie de revolução. Onde não havia opções culturais para os moradores desenvolverem seus dotes artísticos ou terem acesso à arte, surgiram movimentos. O ócio ou a falta de opção de lazer, provocados pela falta de políticas governamentais específicas foram substituídos por aulas de teatro, dança, percussão, balé, esportes, música clássica, cinema...

O fato de ser gente de dentro quem capitaneava essas iniciativas garantia a legitimidade e a aceitação. Outro fator que pesou para o sucesso foi a busca incessante da qualidade, seriedade e profissionalização do trabalho.

Com isso, esse tipo de trabalho é fundamental para a melhoria das condições de vida dos seus integrantes, que se transformam em Artistas com A maiúsculo. Ou seja, seres com idéias multiplicadoras, capazes de repassar os conhecimentos e as novas experiências adquiridas aos mais novos e virar referência não só para os seus colegas de grupo, mas também para a própria comunidade, ajudando a mostrar para os outros jovens moradores que existem outros caminhos além do crime e da marginalidade para se alcançar o reconhecimento e a ascensão social. Afinal de contas, a vida levada na arte é bem mais bonita de ser vivida.

* Diretor e Dramaturgo do Grupo Nós do Morro - RJ