Santos Dumont e o risco do fogo

editorial, Jornal do Brasil

RIO - A inspeção de técnicos do TCU , que expôs as falhas no sistema de detecção de incêndio do aeroporto Santos Dumont, também deixou à mostra uma situação de extrema gravidade. Desde que o terminal foi reformado e ganhou um novo prédio, toda a obra virou objeto de questionamento o projeto é um dos que foram glosados pelo tribunal em função de irregularidades com a construtora responsável. Não à toa, usuários do aeroporto e funcionários são obrigados a conviver com um modelo executado pela metade, no qual ainda não saíram do papel nem o hotel previsto nem o edifício garagem projetado para ampliar o atual estacionamento. Mais que isso, o prédio inaugurado e que sofreu um incêndio antes de a obra ser entregue tem boa parte de suas instalações sem utilização ou subutilizados.

A descoberta de que os sprinklers e detetores que podemos ver no teto são apenas enfeite é assustadora. E demonstra a falta de preocupação dos responsáveis com um público enorme e que paga taxas de embarque caras justamente para custear melhorias e sistemas de segurança mais eficientes. Surpreende ainda mais que o equipamento não tenha sido instalado, e tanto tempo depois as coisas continuem da mesma maneira. O argumento de que há outras formas de proteção e combate a incêndios, como a presença de extintores, é uma meia verdade. É lógico que isso aumenta a capacidade de combate às chamas, mas, se não fosse necessária e imprescindível ainda mais em construções com pé-direito alto e muito material inflamável dentro , a exigência de se apresentar todo esse diagrama para aprovação como parte da planta do projeto seria desnecessária. E não é.

O novo prédio do Santos Dumont, ao contrário do antigo, não tem tantas saídas assim capazes de permitir que, em uma situação de pânico ou incêndio grave, as pessoas possam fugir com facilidade. Como se comportariam as grandes portas giratórias em caso de um incêndio maior que se ampliou justamente pela ausência de mecanismos de detecção em seu início é uma incógnita. A brigada de incêndio do aeroporto seguramente dispõe de um esquema de atuação, mas, sabendo que não tem um sistema que lhe daria a vantagem de tempo, precisa trabalhar em desvantagem, contra o tempo.

Sempre é importante lembrar, embora o prédio tenha muito concreto e mármore, que ali, logo a uns 30 metros de distância em linha reta, costumam estacionar aeronaves com combustível no tanque. E que são abastecidas na pista, como em qualquer operação normal. Há toda uma série de precauções que precisam ser seguidas por conta da facilidade do querosene de pegar fogo. A passarela envidraçada de embarque, uma novidade no projeto apenas 50% executada, é fechada e também exibe os sprinklers de enfeite no teto. Por mais que seja feita de materiais que inibem o avanço do fogo, é preciso considerar sempre essa possibilidade.

O relatório do TCU não precisa ser apenas um alerta em torno dessa situação. O documento deve ser uma peça importante para o estabelecimento de responsabilidades em torno da ausência do sistema, e a falta de informação sobre esse assunto, importante para o público que frequenta e sustenta o aeroporto com as taxas que paga , é negligência. Alguém omitiu esse dado por todo o tempo, e isso é que precisa ser investigado, tanto quanto consertar o que está faltando.