Foram águas que passaram pelo Rio

Paulo Pacini *, Jornal do Brasil

RIO - Em 1935, o pesquisador Magalhães Correia publicava sua conhecida obra Terra Carioca Fontes e Chafarizes, onde fazia um completo levantamento destes artefatos, já então desprovidos de sua função original pelo abastecimento por água canalizada, mas de grande valor histórico e estético.

Ainda marcado pelo trauma relativamente recente da desaparição dos dois mais importantes chafarizes, o da Carioca, em 1925, que deu nome à própria terra, e o das Marrecas, o mais belo de todos, demolido arbitrariamente em 1906 quando da reforma e ampliação do quartel de polícia na rua Evaristo da Veiga, o autor protesta contra o descaso dos eventuais ocupantes do poder, que, em nome do que chamavam de progresso, destruíam obras multisseculares que adornavam e constituíam autênticos marcos na identidade da cidade.

É forçoso dizer que, desde que o livro foi escrito, a situação degenerou de forma que ninguém poderia imaginar, nem remotamente. Nos dias de hoje, poucos são os chafarizes remanescentes que conservam sua originalidade, submetidos a décadas de abandono e vandalismo, com suas partes em metal roubadas e sofrendo o flagelo contemporâneo da pichação.

Entre os menos atingidos estão o da Praça 15, protegido pela exposição em local aberto, a Bica da Rainha, no Cosme Velho, cercada por grades, e o da Praça Onze, no Alto da Boa Vista, relativamente remoto. Dos menos afortunados constam o do Catumbi, da época de dom João VI, invadido e depredado, o do Lagarto, também invadido, na rua Frei Caneca, construído pelo vice-rei Luís de Vasconcellos em 1786 e provavelmente obra de Mestre Valentim, o da Riachuelo, de 1817, reduzido a portão de automóveis e depredado, o da Glória, feito em 1772, restaurado por Pereira Passos e transformado em mural para pichadores, dentre outros em estado semelhante.

Na raiz do abandono está o desprezo pelo passado, materializado na omissão daqueles que deveriam zelar pelo patrimônio coletivo, muitas vezes assaltado a olhos vistos dia após dia, como foi o caso do Passeio Público alguns anos atrás, onde toda amurada de bronze ao fundo foi roubada, além do maior insulto de todos, o próprio busto do criador do parque, mestre Valentim.

Todos que passavam diariamente pelo local testemunharam a depredação, sem que se fizesse absolutamente nada, só após o acontecido.Depois do elevador cair, trocam-se os cabos, é claro.

Poucas e honrosas exceções a este tipo de atitude ocorreram ao longo do tempo. Uma delas foi em 1906, quando, como foi mencionado, demoliu-se o chafariz das Marrecas. Considerado a mais bela obra de Mestre Valentim, de 1785, tinha entre seus ornamentos as primeiras estátuas a serem fundidas no Brasil, feitas na Casa do Trem (Arsenal), hoje Museu Histórico Nacional.

Cinco marrecas em bronze jorravam água, três das quais, já em 1935, haviam sumido, e duas magníficas estátuas, representando a Ninfa Eco e o Caçador Narciso, foram salvas da destruição pelo doutor Barbosa Rodrigues, diretor do Jardim Botânico, que para lá as levou, onde podem ser vistas até hoje.

A preservação de monumentos históricos como os chafarizes é um reflexo da luta entre atitudes de ignorância e desprezo pelas obras do passado e suas opostas, conscientes e eticamente corretas como a de Barbosa Rodrigues.

Após mais de 100 anos de dilapidação do patrimônio histórico, seja pela destruição pura e simples ou pelo abandono, torna-se necessária uma nova maneira de se olhar para as obras que, até nós, chegaram de um passado distante, representando outras eras e o esforço dos antepassados.

Somente a valorização do que foi legado, através da educação, conservação adequada, vigilância e punição severa contra marginais, sejam ladrões de metal ou vândalos, poderá garantir a transmissão às gerações futuras desses monumentos, motivo de orgulho em uma cidade com antiga e valorosa história.

*Escritor e pesquisador