Eleições na guerra?

Flavia Machado Cruz *, Jornal do Brasil

RIO - Em 20 de agosto, os afegãos foram às urnas escolher um presidente e membros dos Conselhos Provinciais do país. A eleição atraiu olhares do mundo por ser a primeira livre, organizada pelos próprios afegãos (o pleito de 2004 foi organizado pelos EUA), após 30 anos de violência e opressão.

Vale lembrar: em 1979, com o assassinato do presidente Hafizullah Amin, teve início a ocupação soviética no país, o que transformaria o Afeganistão em palco de uma guerra que, de fria, não teve nada é do conhecimento de todos que os EUA ajudaram a financiar os guerrilheiros islâmicos, os mujahedins, que se opunham à ocupação soviética.

Em 1989, após US$ 20 bilhões e 15 mil soldados soviéticos mortos, os russos deixaram o Afeganistão e abriram caminho para a ascensão do Talibã que, em 1992, toma Cabul e assume o poder, não sem antes castrar, enforcar e arrastar o corpo do então presidente, Mohamad Najibullah, pelas ruas da capital. O domínio talibã perduraria até dezembro de 2001, quando os EUA invadiram o país em busca de Osama Bin-Laden, dando início a uma nova ocupação, ainda em curso, no maior produtor de ópio em todo o mundo. Mesmo com a ocupação, passa de 7 mil toneladas/ano a produção de ópio no Afeganistão, números comparáveis só à produção de narcóticos na China do século 19 e responsável hoje por abastecer 93% do consumo de opiáceos no mundo, ou seja, muito dinheiro.

Dada a sua história recente, a organização de eleições livres no Afeganistão poderia ser vista como uma conquista. Mas será que a (penosa) história deste (narco) Estado justifica a farsa das eleições afegãs?

Pouco depois do dia 20, corriam o mundo notícias de fraudes. Um repórter da BBC comprara, por US$ 10 cada, dezenas de cédulas de votação. Mesmo assim, à época, o representante especial da ONU para o Afeganistão, Kai Eide, declarou-se satisfeito , apesar dos incidentes . Após amplas notícias de fraude, a Comissão Eleitoral de Queixas iniciou auditoria e deve confirmar hoje um segundo turno entre o ex-chanceler Abdullah Abdullah e o atual presidente, Hawid Karzai.

O maior beneficiado pelo pleito do dia 20 foi o presidente Karzai, que antes da auditoria contava com 53% dos votos, garantido sua reeleição em primeiro turno. Esta semana, o ex-vice-representante especial da ONU para o Afeganistão, Peter Galbraith, acusou seu ex-chefe, Kai Eide, de beneficiar Karzai, permitindo irregularidades na votação. Em meio a este cenário, sob uma guerra em curso, os afegãos devem voltar às urnas. Mas ao que parece, não para escolher um presidente, mas para confirmar uma farsa.

Pior do que ser feito de palhaço, é ser feito de palhaço duas vezes. E, pelo jeito, o mundo escolheu os afegãos como protagonistas deste triste espetáculo circense.

* Consultora em direito internacional