Barreiras acústicas e psicológicas

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - O estigma social e o descaso histórico em se levar infraestrutura a áreas pobres provocaram, ao longo do tempo, um efeito colateral que tem prejudicado as próprias populações acostumadas a viver à margem dos serviços públicos. Há uma desconfiança arraigada em relação às ações do governo nestas comunidades. O mais novo episódio do tipo é o que tem posto na berlinda a instalação de barreiras acústicas ao longo das linhas Vermelha e Amarela.

O objetivo, anunciado pela Prefeitura do Rio, é o de atenuar a poluição sonora produzida pelo intenso tráfego nos corredores expressos. Moradores das comunidades que margeiam as duas vias, porém, levantaram a voz contra o erguimento destes aparatos. Para eles, a instalação das barreiras é um ato de discriminação, de segregação social e espacial. No Complexo da Maré, 17 associações de moradores da região prometem fazer um movimento neste fim de semana para colherem assinaturas em repúdio às barreiras acústicas. O abaixo-assinado será entregue à prefeitura, e o Ministério Público também deverá ser acionado.

As principais queixas dos moradores são de que o direito de ir e vir será tolhido e que, por causa da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016, os governantes estão querendo varrer a sujeira para debaixo do tapete , ao esconder a favelização da paisagem da cidade. É certo que o prefeito Eduardo Paes tem se mostrado consciente dos riscos do projeto e das repercussões que ele envolve. Mas, dada a resistência, o melhor caminho é o poder do convencimento, num trabalho de persuasão.

Barreiras acústicas são comuns em rodovias que cortam áreas residenciais na Europa, Estados Unidos, Austrália e Leste Asiático sobretudo no Japão e em Hong Kong. Sua instalação é tão desejável em certas regiões de tráfego intenso que bastou o anúncio da prefeitura para, rapidamente, outras associações do Rio se candidatarem a receber a proteção contra a poluição sonora. É o caso da Associação de Moradores do Alto Gávea, na Zona Sul, que agora reivindica a construção de uma barreira acústica de 400 metros de comprimento entre os túneis Dois Irmãos e Zuzu Angel. Ou seja, o que cidadãos de comunidades carentes recusam, ressabiados por supostas segundas intenções do projeto, é valorizado por moradores de área nobre da cidade.

Episódio semelhante, relacionado a essa desconfiança em relação ao poder público, deu-se há menos de dois meses. Moradores do Dona Marta, em Botafogo, reagiram veementemente à instalação de nove câmeras utilizadas em estádios durante o Pan de 2007 em locais estratégicos do morro. A iniciativa teve como objetivo melhorar o monitoramento e a segurança na comunidade, primeira favela a receber uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Mas desagradou aos moradores que alegaram, sobretudo, ter sua privacidade invadida. O fato, porém, é que vários bairros, ricos e pobres, já são monitorados por este sistema de vigilância, como Copacabana, Leblon e Recreio dos Bandeirantes, bem como o Complexo da Maré.

Logo, o que se vê em comum nestes episódios é a persistência de uma barreira psicológica - compreensível, diga-se - que faz os moradores das áreas mais pobres rechaçarem de imediato ações do Estado. Ainda que estas não lhes sejam desfavoráveis.