Vitória na guerra de um Nobel da Paz

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Vencedor do Prêmio Nobel da Paz, mais pelo que pode fazer do que pelo que já fez pela segurança mundial no curto espaço de tempo que está na Casa Branca, o presidente americano Barack Obama teve motivos na última terça-feira para comemorar a conquista de uma batalha na longa guerra legislativa que está travando no terreno doméstico, com muito mais repercussões para seu prestígio interno do que a honrosa láurea oferecida pela Fundação Nobel.

Atualmente, as principais baterias de Obama estão apontadas para a aprovação da sua audaciosa reforma do sistema de saúde pública dos Estados Unidos. Depois de vários reveses, Obama conseguiu uma vitória importantíssima, por 14 votos a 9, na Comissão de Finanças do Senado. Ainda há um longo trâmite pela frente, mas um indício de que o jogo começa a virar foi a adesão da senadora republicana Olympia Snowe, única de seu partido a votar a favor da proposta. O embate, porém, não é nada fácil, e o presidente tem usado todas as armas para mobilizar a classe política e a opinião pública. A ida de Obama a um dos principais programas de entrevistas da TV americana, às vésperas da votação, foi um sintoma, por ele mesmo assumido, de como o assunto é vital, e por isso estava ali para levar seus argumentos aos lares de milhões de americanos.

De acordo com a versão do projeto aprovado pela Comissão de Finanças, todos os americanos e residentes legais no país terão direito a um seguro de saúde obrigatório. Segundo estimativas, o custo da medida para o Tesouro americano, em dez anos, será de US$ 829 bilhões, metade do PIB brasileiro.

O projeto tem despertado a fúria dos que defendem o Estado mínimo e a visão liberal segundo a qual cada um deve ser deixado à própria sorte, pois a mão invisível do mercado há sempre de corrigir as distorções. Esta matriz de pensamento é ainda mais forte nos Estados Unidos, país cuja formação se deu sob o signo da extrema desconfiança em relação ao governo.

Por isso, embora tenha sido uma promessa de campanha, a reforma do sistema de saúde foi duramente atacada nos últimos meses pela oposição e pelos simpatizantes, algumas vezes fanáticos, da direita neoconservadora americana. Obama foi taxado de comunista, de fascista e até comparado a Hitler, pela ideia de universalizar os serviços de saúde.

Na entrevista pela TV que lhe serviu de palanque, Obama criticou poderosos grupos econômicos, como poucas vezes já se ouviu de mandatários ciosos de não ferir suscetibilidades. O presidente americano se apresentou como um ardoroso defensor do Estado de bem-estar social. Lembrou que as empresas médicas privadas no país, na última década, tiveram lucros exorbitantes devido a reajustes acima da inflação dos planos de saúde e porque fazem de tudo para se livrar dos custos daqueles que mais necessitam de atendimento, excluindo do contrato doenças preexistentes o que passa a ser proibido com a nova lei. Obama referiu-se até a conversas com outros chefes de Estado que, mesmo pertencendo a partidos conservadores, diziam não compreender como a nação mais rica do mundo não possuía um sistema público de saúde digno. Há hoje, nos EUA, 46 milhões de pessoas à margem de qualquer assistência médica. Estes é que serão os maiores premiados com a justa guerra encampada pelo Nobel da Paz.