A hora e a vez do Rio de Janeiro

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Chegou a hora. Depois de dois anos em campanha, quando foram gastos R$ 100 milhões para promover a candidatura do Rio de Janeiro, a escolha da cidade que sediará a Olimpíada de 2016 será anunciada amanhã, em Copenhague, na Dinamarca. Muito jogo de sedução, marketing, cadernos de encargos bem elaborados, promessas nem sempre críveis, todas as armas possíveis foram utilizadas pelas quatro finalistas para convencer os 105 eleitores do Comitê Olímpico Internacional (COI).

Após duas tentativas frustradas, quando tentou sediar os Jogos de 2004 e 2012, a candidatura do Rio de Janeiro finalmente ganhou a maturidade necessária. Pela primeira vez chega à fase final e já figura como uma das favoritas. Nem o peso da presença em Copenhague do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, defendendo Chicago, seu berço político, parece tirar o otimismo dos organizadores da candidatura brasileira. A escolha por Madri ou Tóquio, ao que tudo indica, é mais improvável.

Há boas razões para não se taxar a expectativa, criada em torno da vitória, de ufanismo ingênuo. Em primeiro lugar, houve um aprendizado e uma aquisição de expertise com as derrotas passadas. O projeto é melhor que os anteriores. Desta vez, o empenho da comissão organizadora fez com que, depois de ter recebido inicialmente a nota mais baixa entre as quatro finalistas, a candidatura do Rio revisasse tudo e corrigisse as falhas. O dever de casa foi reconhecido. Quebrando o protocolo, comissários do COI aplaudiram, no início do ano, a apresentação do projeto feita no Rio. A boa impressão, registrada em relatório que os inspetores divulgaram no começo de setembro, elevou a cidade à posição de favorita, segundo os principais veículos especializados.

Junto com Chicago. Mas se a cidade americana tem costas quentes, com a força de Obama e sua mulher Michelle, madrinha da candidatura, é preciso ressaltar que, no caso do Rio, o presidente Lula há muito se apresentou não só como o fiador da Olimpíada no Brasil como também um falante candidato em campanha em suas muitas viagens e discursos pelo mundo. Obama, em que pese sua capacidade de seduzir, mantinha-se à distância e só agora resolveu dar um sprint final.

O papel dos chefes de Estado na escolha das cidades olímpicas tem sido cada vez maior. Os Jogos tornaram-se eventos cuja responsabilidade e impacto vão muito além das fronteiras de uma única cidade. Pesquisa feita pela Fundação Instituto de Administração (FIA), da Universidade de São Paulo, por exemplo, prevê a criação de 2 milhões de empregos até 2027 caso o Rio seja a cidade olímpica, 53,1% dos quais seriam gerados fora do estado. A candidatura do Rio de Janeiro tem o apoio efetivo do presidente, mas também do governador e, claro, do prefeito, numa sinergia favorecida pela conjuntura política. São os três níveis de governo integrados na realização dos Jogos. Não é qualquer concorrente que pode contar com isso.

Outro fator importante é a realização da Copa do Mundo de 2014, tendo o Rio como um dos principais palcos. Trata-se de uma garantia de que a cidade estará preparada e envolvida para a realização de um grande evento esportivo como a Olimpíada. Há ainda o argumento, estrategicamente usado na campanha, de que a os Jogos jamais foram sediados na América do Sul. Está na hora de o COI reconhecer, à la Obama, que sim, nós também podemos.