Para manter viva a esperança

Jorge Beloqui e Mário Scheffer, JB Online

RIO - Temos muito o que comemorar com os recentes resultados positivos da pesquisa de uma vacina anti-HIV com mais de 16 mil pessoas na Tailândia. Afinal, é a primeira vez que uma vacina experimental, num estudo de larga escala e de longa duração, demonstrou segurança e eficácia, ainda que parcial, na capacidade de prevenir a infecção pelo HIV.

Até então, os cientistas estavam mergulhados em pessimismo sobre a possibilidade de encontrar uma vacina. Muitos deles andavam afirmando, inclusive, que a tarefa era impossível.

O balde de água fria havia sido jogado pelo fracasso de algumas tentativas. Em 2007, por exemplo, o estudo com a vacina do laboratório Merck teve de ser interrompido quando se comprovou que as pessoas vacinadas não ficaram protegidas da infecção. E as pessoas que se infectaram, mesmo vacinadas, não tinham menor quantidade de vírus no sangue.

Parece que não é o momento de jogar a toalha . O promissor resultado da vacina combinada testada na Tailândia traz otimismo e novos caminhos para a pesquisa de vacinas anti-HIV. Vale lembrar que esta vacina é baseada na produção de anticorpos, estratégia que havia sido deixada de lado há alguns anos. A recente descoberta de dois anticorpos amplamente neutralizadores, publicada recentemente na revista Science, reforça esse redirecionamento da pesquisa de vacinas contra o HIV.

Uma vacina preventiva, para as pessoas ainda não infectadas pelo HIV, pode levar até à erradicação da Aids, como já aconteceu com a varíola. Para isso, deve ser capaz de produzir uma reação no sistema imunológico suficiente para neutralizar, eliminar ou controlar o HIV.

A vacina poderia ser também terapêutica, para as pessoas com HIV, com o objetivo de neutralizar o vírus após a reação do sistema imunológico.

Mais de 60 produtos candidatos à vacina já foram experimentados no mundo, em várias fases de estudo. No Brasil há centros nacionais de pesquisas de vacinas anti-HIV em Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo.

São várias as pistas de que uma vacina contra a Aids é possível. Algumas pessoas têm capacidade de barrar a infecção, mesmo expostas ao HIV. Existem crianças que nascem de mães infectadas mas não têm HIV. Existem pessoas infectadas pelo HIV há muito tempo e que não desenvolvem Aids, permanecendo saudáveis.

Os obstáculos também são muitos. Se é verdade que os pesquisadores sabem quase tudo sobre os mecanismos de mutação e propagação do HIV, ainda ignoram as correlações precisas entre a resposta imunológica e a proteção.

Que fique claro: vacinas parcialmente ou altamente eficazes jamais eliminarão a necessidade da adoção do sexo seguro, do uso de presevativos e outras medidas de prevenção contra o HIV.

Uma vacina anti-HIV ideal deve ter segurança excelente e risco mínimo de efeitos adversos. Também deve ter eficácia na prevenção da transmissão do HIV por todas as vias conhecidas (oral, genital, anal e sanguínea) e em diferentes populações (independente do estado nutricional, de doenças preexistentes e características étnicas).

Já a proteção deve ser de longa duração contra todas as variedades de HIV-1 existentes. O meio de administração (se por via oral ou injetável), o número de doses a serem tomadas, a combinação com outros programas de imunização, a facilidade de transporte, a resistência a mudanças de temperatura são outros determinantes da viabilidade de uma vacina anti-HIV.

Vencidas as batalhas científica e técnica, existirão empecilhos sanitários, econômicos e de patentes para a fabricação e a distribuição em massa de uma vacina. Mesmo finalizada uma vacina anti-HIV, diante do alto custo e da dificuldade de produção local, os países pobres e em desenvolvimento correrão o risco de não ter acesso a essa conquista da humanidade.

Aí que entra o nosso ativismo, para exigir que a saúde e a vida estejam acima de interesses comerciais, para manter viva a esperança de que um dia, com a descoberta de uma vacina, iremos vencer a epidemia da Aids.

* Jorge Beloqui é doutor em Matemática, membro do Grupo de Incentivo à Vida (GIV) e da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia). Mário Scheffer é doutor em Ciências e presidente do Grupo Pela Vidda-SP.