Dia da Bíblia

Dom Eugenio Sales *, Jornal do Brasil

RIO - O mês de setembro é, particularmente, consagrado à Sagrada Escritura, e o Dia da Bíblia ocorre no domingo mais próximo da memória de São Jerônimo. É celebrada na data de sua morte, 30 de setembro de 420, em Belém. A devoção aos Livros Santos e a tradução feita por ele, conhecida como Vulgata, tornaram-no famoso. Essa recordação anual é uma excelente oportunidade para estimular a leitura da Bíblia e o amor ao texto santo.

Essa obra, a mais difundida do mundo, é fruto da ação de Deus e do trabalho do homem. O Autor divino comunica a seus filhos a mensagem salvífica. No entanto, a criatura o escreve, evidentemente, de modo humano. De certa forma, existe uma coautoria. O escritor e são vários, durante séculos! recebe a inspiração que o orienta, de tal modo que preserva de maneira absoluta a palavra divina. O resultado é uma roupagem temporal, estilo e cultura, em um conteúdo que vem de Deus e se destina a guiar para Ele seu Povo.

O ensino que Deus transmite, por sua própria natureza, deve chegar a cada pessoa e aos confins da terra. No Antigo Testamento era recipiendário dessas verdades o povo eleito, e os Livros Santos eram complementados por uma tradição. Com o advento do Salvador e a ordem de romper as barreiras e alcançar toda a Humanidade, foi ampliado imensamente o solo a ser semeado, e a luz se espalhou por toda a terra. Surgiram outros escritos que compõem o Novo Testamento.

Convém observar que não interessa saber se é usado papiro, pergaminho, tabuinha, barro cozido ou finalmente papel, nem o tipo de documento e a maneira de gravá-lo até a descoberta da imprensa, por Gutenberg, mas a própria doutrina que nos foi revelada pelo Senhor. Trata-se de um ato trinitário, embora se atribua a ação inspiradora à 3ª Pessoa, o Espírito Santo, como à 2ª, o Verbo Encarnado, a Redenção, e ao Pai, a criação.

O livro é importante, mas seu valor transcende as folhas, as letras, a prolação da palavra. A grandeza divina é infinitamente mais vasta, e a mensagem redentora, pela qual a Trindade rasga caminhos de salvação à Humanidade decaída, abre de par em par as portas da vida eterna. Pode alguém ser salvo abstraindo dos meios usuais ou por uma ação direta de Deus. Isso, contudo, em nada diminui a grandeza da Bíblia, pois nela se encontra a via ordinária da salvação.

Ao lado da Sagrada Escritura, vinda da mesma fonte, a Revelação divina, para os católicos, há a Tradição, oral ou principalmente escrita, que, juntamente com o texto sagrado, nos conduz a Deus. Poderá parecer curioso, para alguns, que a Igreja de Cristo tenha vivido certo espaço de tempo sem o Novo Testamento. No entanto, o período que medeia entre a morte do Salvador e o início do Novo Testamento, a pregação oral, especialmente dos Apóstolos ainda vivos, comunicava às comunidades, em franca expansão, a doutrina salvadora. Segundo os exegetas, o primeiro livro do Novo Testamento foi escrito em torno do ano 50, a Epístola aos Tessalonicenses.

A existência de uma revelação não totalmente contida na Bíblia também é prevista pelo trecho do Evangelho de São João (cap. 21,25): Há, porém, muitas outras coisas que Jesus fez e que, se fossem escritas, uma por uma, creio que o mundo não poderia conter os livros que se escreveriam . Portanto, o que Deus manifestou não está exclusivamente no Livro Santo, mas foi transmitido de viva voz. A parte essencial se encontra na Sagrada Escritura.

Assim, para os católicos, há um Magistério vivo, através do qual age o Espírito Santo, que preserva do erro o que está escrito na Bíblia ou se encontra na Tradição. Portanto, a única fonte da mensagem é a Palavra de Deus transmitida de dois modos, pela Bíblia e pela Tradição.

Ainda nos tempos dos Apóstolos, surgiram dificuldades na compreensão, devido às limitações da inteligência humana. Encontramos sinais nas epístolas de São Paulo, alertando para os falsos doutores. São Pedro não fica atrás (2Pd 2,1ss;3,2ss). E adverte contra a deturpação, por interpretações errôneas: Nelas (epístolas de São Paulo) há algumas passagens difíceis de entender, cujo sentido os espíritos ignorantes ou pouco fortalecidos deturpam, para a sua própria ruína, como o fazem também com as demais Escrituras (2Pd 3,16).

Deus nos assegura a permanente integridade, geração após geração, de tudo o que Ele ensinou e à sua Igreja confiou.

O Concílio Ecumênico Vaticano II (Dei Verbum, nº 10) declara: O encargo de interpretar autenticamente a Palavra de Deus foi confiado ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida no nome de Jesus Cristo . Na verdade, a sagrada Escritura e a sagrada Tradição estão intimamente unidas e compenetradas entre si (idem, nº 8). Nós temos aí a regra suprema da fé. Por isso que a liturgia, a pregação, toda a vida cristã estão intimamente permeadas e alimentadas pela Escritura Santa.

Temos, também, um belo exemplo: milhares de fiéis que se agrupam para estudar e viver a mensagem do Senhor, nos círculos bíblicos ou em pequenas comunidades eclesiais de base.

Aproveitemos o Dia da Bíblia para fortalecer nossa devoção à Palavra de Deus. Os homens que falam, têm auditório. Vamos também integrar os numerosos filhos de Deus que escutam, com docilidade, o ensino do Pai. Seguindo-o, jamais andaremos em trevas.