Para onde vai o dólar?

Antonio Oliveira Santos, Jornal do Brasil

RIO - O preço do petróleo depende muito da demanda da China e dos Estados Unidos

Há uma grande expectativa no mercado internacional sobre a desvalorização do dólar, frente a outras moedas, como consequência dos desequilíbrios fiscais e do balanço de pagamentos dos Estados Unidos. Em 2008, o déficit no comércio exterior atingiu, no final do ano, US$ 865 bilhões, média mensal de US$ 72 bilhões. Até junho de 2009, esse déficit havia caído para US$ 36 bilhões, ainda assim um desequilíbrio anual da ordem de US$ 430 bilhões. As exportações estão caindo 24% e as importações, 33%. Mas o problema crucial americano está no desequilíbrio fiscal que, após um déficit de US$ 455 bilhões em 2008, caminha para o espantoso saldo negativo de US$ 1,5 trilhão, em 2009, ou seja um déficit fiscal de 11% do PIB.

De um modo geral, uma moeda se desvaloriza em relação a outras moedas, como, por exemplo, o dólar em relação ao euro, dependendo das diferentes taxas de inflação entre um e outro país; mas nem sempre. A taxa de inflação nos Estados Unidos é mais ou menos igual à da União Europeia; entretanto, a paridades entre as duas moedas acusa forte desvalorização do dólar. Em junho de 2001, com um euro se comprava US$ 0,86 e, em junho de 2008, comprava US$ 1,56. O dólar se desvalorizou 45%, nesse período. Hoje, compra US$ 1,47.

A desvalorização também se reflete no preço dos produtos; por exemplo, em junho 2001, o barril de petróleo custava US$ 27 e em junho 2008 estava em US$ 131,50 .Naquela primeira data, a onça troy (31,10 gramas) do ouro valia US$ 270 e, hoje, vale US$ 1.002.

A comparação com a moeda brasileira é mais volátil, mas também aponta para a desvalorização do dólar: US$/R$ 3,80, em outubro 2002, US$/R$ 1,60, em julho 2008, US$/R$ 1,80, em setembro 2009.

Quando se indaga sobre a tendência do valor do dólar, até o final do ano, a resposta é ser encontrada, em primeiro lugar, nas comparações mencionadas acima, principalmente em relação ao preço do petróleo, embora a alta do petróleo represente uma desvalorização de todas as principais moedas. Outrossim, cabe considerar que o preço do petróleo depende muito da demanda da China, que vai continuar pressionando o mercado, e dos Estados Unidos que estão importando menos, assim como das disponibilidades da oferta a curto prazo, que não deve aliviar os preços, na medida em que a economia mundial dá sinais de início de recuperação.

E a taxa de câmbio R$/US$? Aqui o fator mais importante é a relação oferta e procura de divisas. Neste ano, até o mês de julho, o fluxo cambial foi positivo, conforme se vê pelo aumento de US$ 10 bilhões nas reservas internacionais. Até o final do ano, a situação do Balanço de Pagamentos deverá ser de relativo equilíbrio: saldo de R$ 29 bilhões na balança comercial, mais US$ 33 bilhões de investimentos diretos, US$ 15 bilhões de investimentos em carteira e US$ 3,2 bilhões de remessas de imigrantes. Um total de aproximadamente US$ 80 bilhões. Do lado da procura, teremos US$ 27 bilhões de amortizações de empréstimos, US$ 16 bilhões de serviços, principalmente transportes, viagens e turismo, US$ 35 bilhões de remessa de rendas (juros e lucros), royalties e aluguéis de equipamentos. Total aproximado de US$ 78 bilhões.

O governo pode adotar duas atitudes: favorecer a desvalorização do real, para estimular as exportações, digamos até R$ 2/US$, ou deixar livre o mercado flutuante, para favorecer a inflação baixa, com o que a taxa poderá manter-se entre R$ 1,80 e R$ 1,85/US$, até dezembro e, até mesmo, cair a um patamar mais baixo. O que teria consequências muito negativas.

* Antonio Oliveira Santos é presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo.