O professor faz diferença?

João Batista Araujo e Oliveira*, Jornal do Brasil

RIO - A pedagogia faz diferença. E por quê? A resposta é simples: precisamos refletir sobre o modo de ensinar. E refletir também sobre o papel do professor, suas competências e desempenho. Há um conjunto de questões importantes para o debate no Brasil, especialmente quando se discute a qualidade da educação nas nossas escolas. Devemos resgatar a pedagogia, sim. Mas qual pedagogia?

A partir do Romantismo, no século 19, e com intensidade maior no século 20, a pedagogia foi alvo de inúmeras e intensas críticas por filósofos, sociólogos e educadores. Embora partindo de diferentes perspectivas, o alvo sempre foi o mesmo: a pedagogia tradicional. Para facilitar as críticas, a pedagogia tradicional sempre foi apresentada como o que há de pior. No processo, ao invés de criticar eventuais limitações da pedagogia tradicional, o que se perdeu foi a tradição pedagógica. É isso que cabe resgatar.

Essa é a tese que será defendida no seminário internacional promovido pela Secretaria de Educação Integral, em parceria com o Instituto Alfa e Beto. O seminário tem como título Profissão Professor: o Resgate da Pedagogia, e será realizado no Rio de Janeiro dia 28 de agosto. O título reflete o seu objetivo: demonstrar que a valorização da profissão do professor passa pelo resgate da pedagogia.

A essência da tradição pedagógica é ensinar. As evidências científicas demonstram a diferença que faz o professor que domina os conteúdos e que sabe ensinar. O ensino deve ser intencional, direto, estruturado, sistemático, dirigido. Nada disso implica abandonar a atenção pessoal ao aluno, a motivação, os cuidados com a linguagem.

A avaliação realizada pela Secretaria Municipal de Educação no início do ano letivo reflete uma situação conhecida, mas calamitosa: poucos alunos conseguem atingir os níveis mínimos de conhecimento necessários para prosseguir seus estudos com sucesso. Percentagem significativa dos alunos sequer foi alfabetizada de maneira adequada.

O resgate da tradição pedagógica se faz com o uso dos conhecimentos científicos. O seminário irá mostrar como a evidência científica sugere que quando determinados princípios e práticas são adotados, os resultados são melhores. Além de rever a evidência sobre o que funciona, em geral, o seminário oferecerá uma visão aprofundada de três temas específicos a alfabetização, o ensino da língua materna e o da matemática.

Embora o ensino geral precise ser repensado à luz da tradição pedagógica, o ensino da língua materna merece atenção especial. Este ponto é particularmente crítico, pois, uma vez consolidada a alfabetização, ele é instrumental para o aluno poder compreender o que lê nas diversas disciplinas. Nos últimos anos, além dos descaminhos que levaram ao caos na alfabetização, o ensino da língua portuguesa também vem cedendo a modismos pedagógicos que precisam ser revistos. A concepção predominante no Brasil é a de que é possível compreender o sentido dos textos sem um esforço sistemático de entender a sua estrutura gramatical subjacente. O que se deve ensinar? É importante ensinar gramática? O que, como e quando deve ser ensinado? Essas são algumas das questões que o professor Roger Beard, da Universidade de Londres, virá debater com os educadores cariocas.

Os educadores poderão se surpreender com as evidências científicas sobre o que funciona na educação, em geral, e, especialmente, na alfabetização e no ensino da língua materna e da matemática. O seminário também irá demonstrar que o professor como qualquer profissional não é um mágico: ele é tão bom quanto os métodos que utiliza. A discussão será feita à luz da evidência científica mais atualizada e das práticas de ensino utilizadas nos países em que a educação constitui, de fato, um instrumento de promoção da equidade e de mobilidade social.

Está posto o convite. Agora, vamos ao debate. A valorização do professor requer o resgate da pedagogia das garras das ideologias.

*João Batista Araujo e Oliveira

é psicólogo, educador e presidente do Instituto Alfa e Beto