Uma ponte sobre o abismo da cidade partida

Cacá Diegues*, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - O noticiário da imprensa, do rádio e da televisão, obrigado a cobrir os acontecimentos mais espetaculares, dão constante e regular destaque à violência nas favelas cariocas, provocada por minorias armadas, sejam elas de traficantes ou milicianos. Não adianta repetir que essas minorias são numericamente insignificantes, se comparadas à população de trabalhadores naquelas comunidades. O estereótipo está consolidado e revigorado por uma reiteração desses procedimentos criminosos no material de ficção que vemos em filmes e séries, nacionais ou americanos, a que estamos sempre expostos.

O abismo entre a favela e o resto da sociedade, a famosa cidade partida, a feliz expressão criada por Zuenir Ventura, vai assim se alargando, na medida em que um lado, cada vez mais, conhece menos o outro e se relaciona com ele do jeito que o estereótipo o orienta. Nesses gigantescos guetos proletários, onde uma pequena classe média, surgida nas duas últimas décadas, começa a crescer e a se organizar em busca de uma identidade, uma produção cultural nova e viçosa está florescendo sem que o resto do país se dê muito conta, embora já esteja contagiado por ela na música, na linguagem e nos costumes. E essa é uma cultura que não é apenas do gueto, mas também de nosso tempo, estejamos onde bem estivermos.

A favela carioca já foi um espaço rural, refúgio de migrantes sem teto que improvisavam seus barracos de madeira e zinco nos morros verdes do maciço da Tijuca. Com a crise habitacional na cidade que cresceu de repente, ela foi se tornando, junto com a Baixada Fluminense, dormitório operário até que a saturação de moradias e a ideologia dominante de remoção impedissem, ao mesmo tempo, a interrupção de seu crescimento e os benefícios de uma urbanização. Nesse período, a rica cultura das favelas inventou ritmos e gêneros musicais, inventou o carnaval e o futebol como formas de expressão popular, inventou uma arquitetura pragmática e um urbanismo no caos. E, embora excluída da sociedade formal, chegou a representar internacionalmente a cultura nacional.

Mas, apesar de seu lirismo iluminado, essa era uma cultura autopiedosa e conformada, uma margem provisória e dependente do centro, cuja única aspiração era a do reconhecimento da cidade e, se possível, a da descida individual do morro, numa ascensão que só o pandeiro e a bola podiam lhe dar.

Hoje, os jovens das favelas cariocas formam uma nova geração que, rompendo com os estereótipos de que é vítima, rompeu também com o conformismo que sempre relegou os moradores dessas comunidades a uma sombra de cidadãos, fantasmas sociais assombrando o sono dos ricos. Esses jovens estão agora construindo sua identidade, sobretudo através da cultura. Uma identidade perdida na migração e negada pela sociedade através dos anos. Eles se orgulham de suas comunidades, de suas famílias e de seus vizinhos, de sua atividade produtiva, de seu comportamento social, de sua proatividade. Não se consideram representados pelos agentes da violência e trabalham duro para obter aquilo que seria obrigação do estado lhes fornecer, como a qualquer outro cidadão educação, saúde, moradia, segurança.

Além de nos costumes, a construção dessa identidade está se dando na música, no teatro, na literatura e agora no cinema. Desde 1993, quando tive, pela primeira vez, contato com organizações culturais nascidas nessas comunidades, tenho acompanhado o progresso dos jovens cineastas moradores de favelas, produzindo curtas com pequenas câmeras digitais domésticas, editados em programas acessíveis na grande rede. Esses filmes são vistos entre eles mesmos, circulando de um núcleo comunitário a outro, raramente vencendo a barreira do gueto. Apesar da inevitável precariedade técnica, são filmes feitos com comovente empenho e surpreendente talento, por cinéfilos muito bem informados sobre tudo que se passa no cinema contemporâneo, no Brasil e no mundo.

Mas esses filmes são sobretudo um testemunho de suas próprias vidas e a vida de suas comunidades, como nenhum de nós, cineastas que não moramos lá, somos capazes de registrar. Não tomem o que digo por uma contestação aos filmes que fazemos em favelas, eles são nossa generosa contribuição ao sonho de um país mais justo, fraterno e humano. Mas é claro que, se não vivemos a experiência que eles vivem cotidianamente, nosso testemunho será sempre menos visceral, sempre corresponderá menos aos mais profundos sentimentos desses artistas moradores de favelas.

Foi com esse impulso que imaginamos o projeto Cinco vezes favela, agora por nós mesmos. Nele, esses jovens cineastas se tornam porta-vozes deles mesmos, testemunhando sobre suas próprias vidas e sentimentos, nos dizendo quem realmente são, construindo sua identidade muito além dos estereótipos que criamos para eles. E, ao mesmo tempo, contribuindo de maneira decisiva para a evolução do cinema brasileiro, nesse seu estágio tão rico e promissor. É claro que a violência não podia deixar de estar, de algum modo, presente nesse filme. Mas o tema de seus cinco episódios, de 20 minutos cada um, não é esse.

Em diferentes comunidades do Rio de Janeiro, eles escreveram, dirigiram e realizaram, totalmente por sua conta, mas com recursos e condições de produção de um filme brasileiro médio, semelhante a qualquer um de meus próprios filmes, histórias sobre educação, família, amor, festa, solidariedade e sobretudo ética. São cinco pequenos contos morais, cheios de um humor, de um lirismo e de uma esperança inesperados, iluminando, agora de dentro para fora, a humanidade das favelas cariocas. Além de grandes filmes, dos quais o cinema brasileiro só poderá se orgulhar, eles são também uma ocupação do centro pela margem, uma invasão do sistema pelos excluídos, capaz de estender uma ponte sobre o abismo da cidade partida.

* Cacá Diegues é o idealizador do projeto Cinco vezes favela, agora por nós mesmos