Itamar aponta perigo à vista

Wilson Figueiredo*, Jornal do Brasil

RIO - Estava fazendo falta a presença do ex-presidente Itamar Franco no momento em que o Brasil não consegue se dar conta de tudo que está em jogo. Disse o que tinha a dizer e ficou à espera do eco que passou ao largo. O Senado é o palco, mas por trás, por baixo e por cima, há muita coisa a ponto de romper as conveniências. Pode ser que ainda não tenha acabado de vir à tona o que era previsível, embora esteja na ordem natural, eleitoralmente falando. Um ano e tanto antes da sucessão presidencial tudo se torna de fácil combustão. Faltava riscar o fósforo, mas o vento apagou a chama acesa por Itamar. Entenda-se como for melhor, segundo a conveniência de cada um.

Aos 79 anos de idade, reincidente no cargo de prefeito de Juiz de Fora, já recuperado da passagem pela Presidência da República (1992/95), mandato de senador por Minas Gerais e embaixada em Lisboa, Itamar Franco se apresenta em entrevista à revista Época, diz o diabo sobre uma situação política olhada com certa indiferença pelos atores, mas preocupante para os que já conhecem o gênero e sabem o final de histórias repetitivas e sem fim. Pois terminam sempre do mesmo jeito: debaixo do tapete ou na troca de endereço.

Desta vez, a crise do Senado também tende a ficar para trás, mas os vestígios se acumularam com o tempo e Itamar Franco quebrou o silêncio de quatro mandatos presidenciais já transcorridos com seus sucessores e voltou ao exercício da cidadania, sem outras responsabilidades que as de qualquer brasileiro para emitir opiniões como poucos podem fazer. Com franqueza. Abriu a conversa com a declaração de que o comportamento do Legislativo, particularmente do Senado , foi inadequado ao recorrer ao presidente da República para resolver problemas domésticos e, com isso, diminuiu Legislativo .

Quando da CPI do Orçamento, em 1993, a crise no auge, ele na Presidência da República, algumas figuras cujos nomes, por enquanto desnecessários, guarda para a emergência foram pedir-lhe que fechasse o Congresso. Não era atribuição presidencial. Sabia da gravidade da crise àquela altura e os aconselhou a resolverem, eles próprios, o que estava ao alcance deles. Não lhe cabia, e disse com todas as letras resolver, por fora de suas atribuições constitucionais, a situação criada pelos costumes da vida política. Não eram dois ou três, esclarece Itamar, mas número razoável, nem apenas parlamentares, os portadores da proposta do golpe.

O ex-presidente não perdeu a oportunidade de lembrar que os poderes republicanos em que se sustenta a democracia não são apenas harmônicos, mas independentes: É ruim para a democracia o Legislativo deixar a imagem de poder independente e autônomo e se submeter ao Executivo . Cabia ao Executivo ter recusado de pronto. Mas, aí vem, ele (o presidente Lula) não conhece a história do Legislativo . E deixou no ar a pergunta que se recusa a calar por que ele quer o enfraquecimento do Legislativo? .

Como faz duplo papel, Itamar pergunta e responde: Lula foi um parlamentar obscuro . Não gostou de exercer o mandato e trouxe da Constituinte, em que não se destacou por nenhum lado, a contribuição de ter denunciado os 300 picaretas que atuaram na elaboração da Constituição. Lula mudou muito seu comportamento de 2002 para cá . E sentencia: não tem a menor consideração pelo Legislativo. Quando quis impedir a CPI da Petrobras praticou outra interferência indébita .

Lembra também Itamar Franco que, em 1975, com a democracia ainda longe, o Congresso criou a CPI (no governo Ernesto Geisel) para investigar o acordo nuclear Brasil/Alemanha. A situação era a mesma nas relações entre Executivo e Legislativo: a oposição teve direito a três parlamentares e a maioria governista a oito. Ele, Itamar Franco, senador da oposição, era o presidente da CPI. Não houve qualquer interferência. Agora, em plena democracia, o presidente e o relator são do governo, por obra e graça do Planalto. Conclusão: quando presidente da República interfere, desrespeita o Legislativo.

O presidente Luiz Inácio quer desmoralizar o Legislativo perante a opinião pública . Para Itamar Franco, os senadores da oposição não estão percebendo que é muito mais grave do que um bate-boca sobre criar ou não uma CPI . A seu ver, Lula traz de volta a questão que se ouve na rua: para que um Congresso? . Ele também ouviu isso como ronco das ruas. E, sobretudo, com a popularidade em que está o presidente . Comentário: Ele faz com um viés de certa esperteza . Interessa ao presidente enfraquecer o Congresso (...), desmoralizar o Congresso? . Quando ele chama os senadores de pizzaiolos, é realmente muito grave . Por que? Os congressistas não estão reagindo à altura. O presidente ultrapassa os limites democráticos . Lula mudou muito seu comportamento de 2002 para cá. Acha que somente ele fez alguma coisa pelo Brasil . E Itamar vai alinhando situações que levam a um conclusão implícita: O presidente Lula é hoje um homem popular, mas se sente absoluto . Só ele, é o que se deduz, fez alguma coisa para o Brasil, ninguém mais . O Brasil surgiu com ele e é capaz de achar que vai acabar com ele . (Podia ter dito que é mais fácil Lula acabar com o Brasil que lhe coube pelo voto direto). A democracia corre perigo , custou mas disse. Ele tem a sua responsabilidade, e às vezes não se cobra essa responsabilidade dele . E a oposição está sem norte e sem discurso , incapaz de encontrar o caminho em que se perdeu.

* Jornalista