A serviço da convivência humana

Dom Eugenio Sales *, Jornal do Brasil

RIO - A consciência do valor dos instrumentos modernos de comunicação das ideias ainda não alcançou, entre muitos cristãos, o nível desejado. Falha o comportamento crítico que deve acompanhar os esforços para a evangelização no mundo moderno. Em vez do emprego de uma censura oficial, parece-me preferível dar um lugar de destaque a uma responsável posição ativa dos indivíduos que obrigue a correção de rotas, em meio às deficiências que nos envolvem.

O progresso tecnológico das comunicações constitui, assim, um grave desafio pastoral para a Igreja. A maneira mais eficaz para reduzir os efeitos perniciosos é a orientação da consciência dos comunicadores e formação do senso crítico dos destinatários da comunicação. É o que inculca a instrução pastoral Communio et progressio, de 1971, cuja atualidade, após tantos anos, é evidente: Os comunicadores suscitam e estimulam o diálogo que já existe na sociedade. São eles que moderam o intercâmbio estabelecido no vasto mundo dos mass media. Portanto, a eles compete e é a grandeza de sua vocação promover os fins a que a comunicação social deve tender: o progresso humano em todos os campos e a verdadeira comunhão entre os homens (nº 73).

Aos usuários, a mesma instrução adverte: O público assume um papel ativo no processo da comunicação social, sempre que criticamente julgar as notícias recebidas, tendo em conta a sua fonte e contexto; sempre que souber completar as notícias parciais com elementos colhidos noutras fontes; sempre que, enfim, não tiver medo de manifestar claramente as suas reservas, acordo ou completo desacordo com as comunicações recebidas (nº 82).

A finalidade específica dos meios de comunicação social é fomentar a união dos homens e sua promoção integral: A comunhão e o progresso da convivência humana são os fins primordiais da comunicação social (...) (nº 1).

Ela é uma experiência inscrita em nossa própria natureza, que se realiza no relacionamento e na comunicação com o outro. Hoje pode-se dizer, o mundo está envolvido não só por uma atmosfera, mas também por uma rede de transmissões, através da qual os homens de todos os quadrantes da Terra partilham suas informações e experiências. Em qualquer parte do planeta basta que alguém ligue um rádio, televisão ou use a internet para captar mensagens de toda a parte. Com as recentes invenções de comunicação via satélite, torna-se cada vez mais difícil, para os próprios regimes totalitários e fechados, impedir a penetração de notícias e informações vindas de fora.

Diante deste panorama, parece estranho que, às vezes, nos apeguemos a critérios estreitos para avaliar o poder comunicador de Cristo. Com isto, nos esquecemos de um dado fundamental e inegável: apesar de todas as aberrações e desvarios, vivemos atualmente num espaço cultural marcado por valores originariamente cristãos. Enumeremos alguns que aí têm suas raízes: a dignidade do homem, independentemente de sua condição social e sua raça, de sua cultura; os direitos da mulher e o respeito que lhe é devido e que inclui o direito à vida, inclusive do nascituro; a promoção dos pobres, nos quais a nobreza humana é ameaçada por qualquer forma de opressão, têm aí seu alicerce; a preservação da natureza como um dom de Deus confiado à nossa criatividade e à inteligência é respaldada no Evangelho. O mesmo se diga da fraternidade, que une a todos na mesma vocação comum e da destinação universal dos bens terrenos às pessoas para a realização de seu título de remido pelo sangue do Salvador.

Os princípios morais que devem presidir o comportamento humano para garantia da felicidade própria, na construção do bem estar do próximo, são todos critérios evangélicos, presentes e atuantes em nosso ambiente. Isso é tão verdade que o desrespeito a essas normas provoca sempre ressonâncias profundas e protestos de repúdio. Prova do quanto esses conceitos cristãos foram assimilados e interiorizados pela consciência mundial.

Alguns historiadores, com uma visão abrangente do passado, levantaram essa indagação fundamental: que seria hoje do mundo, se há 2 mil anos não tivesse sido comunicado o anúncio do grande evento, o Evangelho da nova e indestrutível esperança que começou a brilhar numa gruta perdida nos arredores de Belém? Como explicar a inflexão dos rumos da história de um Império Romano que se precipita numa irremediável decadência, de violência e corrupção? Essa mudança tem início, precisamente, a partir do momento em que chegaram a Roma imperial os primeiros mensageiros da comunicação cristã.

Nossa cidade do Rio de Janeiro tem particular responsabilidade nos meios de comunicação social. É aqui que, em boa parte, são preparados programas de rádio e televisão, com enorme penetração nacional. Também grandes órgãos da imprensa são cariocas.

Renovo o apelo no sentido de garantir aos meios de comunicação social o cumprimento de sua missão, a serviço de Cristo e da humanidade.

* Arcebispo emérito do Rio