Queremos só o lado forte, vigoroso e rápido

Cynthia Lira*, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Aquestão do tempo permeia nossa vida. Uma das primeiras tarefas do recém-nascido é aprender a estabelecer um ritmo entre dia e noite, entre o acordar e o dormir. É este ritmo cadenciado do viver cotidiano que vai dar à criança a segurança necessária para desenvolver suas qualidades intrínsecas.

Infelizmente, é mais comum hoje em dia a criança chegar a uma espaço familiar onde reina um ritmo frenético de exigências advindas do mundo externo que colocam a todos sob pressão. Essa questão não é nova. Nossos antepassados viviam num tempo cíclico regido pelos movimentos da natureza que desde o início do processo de civilização e urbanização dos espaços vem sendo interrompido pelo tempo linear que estabelece uma meta onde temos que chegar.

Talvez a característica marcante do nosso tempo hoje seja a interrupção somos constantemente interrompidos pelo telefone que toca, pela hora que acaba, por alguém que chega ou outro que vai. Não temos tempo para nós mesmos, estamos atrasados seja com tarefas simples do cotidiano ou com grandes marcos do desenvolvimento. A irritação com a demora no trânsito, com as filas que enfrentamos, com a criança que demora a amarrar os sapatos, ou com o andar vagaroso dos idosos é tão comum. Simplesmente não temos tempo para a vida, para lidar com a fragilidade inerente do ser humano. Queremos só o lado forte, vigoroso e rápido da juventude exuberante.

Sempre temos uma tarefa por cumprir, algo que leva nossa atenção para longe impedi ndo a percepção do aqui e agora que estamos vivendo. Existe hoje uma sensação generalizada de aceleração do tempo que não deixa de ser real, afinal as notícias correm e com elas o tempo e nós vamos atrás nessa roda-viva que não para nunca.

E talvez parar seja exatamente o que precisamos. Parar para refletir, observar o mundo a nossa volta e nós dentro dele. Muitas vezes é esta a função da terapia a de oferecer um espaço onde se possa parar, onde se torna possível sair do frenesi desesperado da pressa para tudo e simplesmente ser. Diz o ditado popular que O presente é um presente de Deus que se faz presente .

Mas precisamos estar presentes para receber este presente! Estar presente é prestar atenção ao que sentimos e ao que pensamos, é estar em contato consigo mesmo. Respirar. Criar um espaço seguro onde podemos receber o que acontece sem ter que controlar. A pressa de chegar, de fazer, de concluir nos impede de ver que estamos sempre em processo. Que o destino está no próprio caminho e não na chegada.

A falta de contato com um tempo orgânico ritmado, construído do entrelaçamento de períodos de intensa atividade e de repouso natural nos torna mecânicos e afastados da nossa própria humanidade. Buscando estar sempre conectados na rede perdemos nossas conexões humanas. A pressa atravessa o tempo e nos leva a perder contato com nossos ritmos naturais.

Não há como apressar o tempo. Por detrás de todo frenesi do nosso cotidiano tem um outro tempo, nosso tempo interno de processamento dos fatos das nossas vidas. Precisamos treinar este duplo olhar, para dentro e para fora, um e outro. Talvez assim possamos ser agraciados de quando em quando com uma sincronicidade, com a coincidência dos tempos do mundo interno com o mundo externo. Neste momento que não tem hora nem lugar marcados, simplesmente estamos presentes e somos alimentados pela certeza de estar no nosso próprio caminho.

Calma que eu tenho pressa....

*Psicóloga da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica