Rumo à retomada do crescimento

Editorial , Jornal do Brasil

RIO - O fantasma da recessão que ameaçou assombrar a economia nacional foi temporariamente exorcizado. As primeiras estimativas sobre o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre preveem expansão de 0,5% a 2,3% em relação ao primeiro trimestre, dependendo do grau de otimismo (ou de mau humor) do analista. O fato é que o quadro de recessão técnica , marcado por duas contrações trimestrais consecutivas, foi superado com forte impulso do consumo.

Sob impacto da crise global, o PIB brasileiro havia recuado 3,6% no quarto trimestre de 2008, na comparação com o terceiro. No primeiro trimestre do ano corrente, foi registrada nova queda, de 0,8%. Mas os números divulgados terça-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística afastaram o espectro negativo que por aqui pairava. Segundo o IBGE, o comércio varejista registrou expansão, em maio, de 0,8% em relação a abril. O resultado confirma a avaliação de que o consumo das famílias cresce a um ritmo razoável.

No primeiro semestre, a demanda por bens semiduráveis e não duráveis manteve o comércio aquecido, mas para os próximos meses, diante da recuperação do crédito, a tendência é de crescimento ainda mais intenso na venda de bens duráveis. Na esteira da retomada econômica, a indústria também deve registrar recuperação. De fato, 20 dos 27 setores avaliados pelo IBGE tiveram expansão em maio, contra 16 em abril. Para este segundo semestre, a tendência mais comentada por economistas é de crescimento mais significativo na avaliação mês a mês. Até mesmo a expectativa de contração do PIB em 2009 começa a ser revertida. Já há quem aposte fora do governo em variação ligeiramente positiva no ano.

No mesmo pacote de notícias alvissareiras, há de se incluir outro dado: a queda de 22,7%, em junho, do nível de inadimplência no comércio, verificado pela Confederação Nacional de Diretores Lojistas. No acumulado do ano, a inadimplência caiu 6% na comparação com igual período de 2008. Representantes do setor afirmam que o consumidor retomou a confiança e quitou suas dívidas.

Vários foram os fatores que deram novo impulso à roda da economia. Cortes sucessivos dos juros, estímulos fiscais, redução de impostos (sobretudo em setores como o automotivo) e a desaceleração apenas moderada da massa salarial justificam o atual momento. Mas é bom que governo, empresários e consumidores mantenham-se atentos. É bastante provável que a massa salarial perca fôlego ao longo do ano e que o setor automotivo tenha um quarto trimestre bem mais fraco que os anteriores. Além disso, o impacto da política fiscal tende a ser menor de agora em diante.

Por ora, os números dão certo alívio ao Brasil, e reforçam o acerto do rumo traçado pelo governo federal incluindo-se aí a opção pelos estímulos fiscais, agora condenados pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. A OCDE (entidade que reúne 30 países desenvolvidos e em desenvolvimento, da qual o Brasil não toma parte) recomenda que a redução de tributos só deve perdurar caso a crise econômica se aprofunde. Convém aguardar se os prognósticos se confirmam para seguir ou não tais conselhos.