Bancos públicos e a alta do crédito

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Uma declaração do ministro Guido Mantega, nesta semana, fez lembrar a relevante contribuição do setor público brasileiro na mitigação dos efeitos da contaminação da economia nacional pela crise financeira global. O titular da Fazenda afirmou, durante a solenidade de posse do novo presidente da Nossa Caixa, segunda-feira, que o papel dos bancos públicos está sendo fundamental para restabelecer a normalidade da concessão de crédito e que, cada vez mais, estas instituições vão atuar para elevar a concessão de financiamentos e reduzir os juros de tais operações. O discurso em prol da expansão do crédito merece apoio, mas também uma ressalva. Vários são os analistas que se mostram apreensivos com uma eventual piora da crise mundial, que poderia levar à explosão da inadimplência.

No elogio aos bancos estatais, o ministro não se furtou de tecer uma justa crítica aos congêneres privados. Espero que os bancos privados voltem a aumentar a concessão de crédito devido à concorrência que os bancos públicos vão fazer , manifestou Mantega, encerrando o comentário com a lembrança de uma regra básica do mercado: Se não aumentarem o crédito, vão perder clientes para os bancos públicos .

A análise de números recentes confirma a força do setor público na concessão de créditos. Não fosse a conjugação de esforços da Caixa Econômica, do Banco do Brasil e do BNDES para não mencionar os subsídios federais destinados ao consumo a economia brasileira poderia ter imergido numa perigosa espiral descendente. De janeiro a setembro do ano passado antes da explosão da crise, portanto os bancos privados respondiam por 47% do aumento médio mensal do saldo do crédito. Os privados de capital estrangeiro ficavam com 18%. Os bancos estatais, ou públicos, com os 35% restantes. De outubro a março, a proporção deu uma guinada: os bancos públicos passaram a responder por 82% do aumento médio mensal do saldo de crédito, enquanto os privados caíram para inacreditáveis 8%. As instituições estrangeiras viram minguar a participação de 18% para 10%.

O ministro afirmou que o crédito na economia está se restabelecendo mas ainda não voltou à normalidade em relação ao que havia antes da piora da turbulência internacional, em setembro. Segundo ele, o governo poderá adotar medidas adicionais entre elas, o aumento da liberação de depósitos compulsórios de forma direcionada para algumas áreas caso julgue necessário.

O freio do crédito bancário privado sugere que nem todos acreditam que o pior da crise já passou. Aliás, muitos analistas que acompanham o setor bancário se dizem preocupados com o crescimento acelerado do crédito distribuído pelos bancos públicos. Na história do país, repetidas vezes o Tesouro foi obrigado a capitalizar instituições como o Banco do Brasil depois de períodos de concessão desordenada de empréstimos. O governo precisa estar atento para que o mesmo não ocorra novamente.

Destravar o crédito em todo o sistema é condição essencial para tirar o país do perverso garrote que estanca a economia. Os bancos públicos estão fazendo sua parte. Aguarda-se o mesmo das instituições privadas.