Perspectiva depende de integração vizinha

Laura Bogado Bordazar*, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Para arriscar um cenário amplo será necessário esperar as eleições do Brasil e do Uruguai

Neste domingo se celebram na Argentina as eleições legislativas nacionais, que renovarão parte da Câmara dos Deputados e senadores nacionais. Os resultados definirão a liderança e realinhamentos políticos, e significarão um posicionamento-chave para as próximas eleições presidenciais, em 2001.

A particularidade destas eleições legislativas é que as pesquisas se encontram muito divididas, anunciando um pleito disputado fundamentalmente na província de Buenos Aires entre os candidatos liderados pelo ex-presidente Néstor Kirchner (da coalizão Frente para a Vitória), que se colocou à frente da campanha disputando votos nos distrito mais populoso da Argentina já que concentra 37% do eleitorado nacional contra o candidato Francisco de Narváez, da União PRO (Peronismo dissidente de orientação centro-direita). Esta coalizão é liderada pelo atual chefe de governo da cidade autônoma de Buenos Aires, Mauricio Macri, principal opositor do governo nacional.

O kirchnerismo apostou durante toda a campanha em manter seu projeto político no poder, questão que poderia se ver afetada se não obtiver uma porcentagem alta de votos em todo o país, que permita-o manter a maioria no Congresso nacional.

As sondagens de opinião realizadas por várias consultoras privadas confirmam uma polarização entre dois dos principais candidatos, De Narváez e Kirchner, dando a este último uns 5 ou 6 pontos percentuais de votos a mais que o primeiro. Para o governo, este seria um resultado favorável, que somado aos de outras províncias, teria uma plataforma para conservar a maioria na legislatura nacional. Este cenário de divisão do eleitorado se repete em várias províncias do interior do país, onde não há um partido claramente ganhador das eleições, segundo as pesquisas.

Na capital federal, a situação se apresenta mais dividida, sendo a candidata a deputada pela União PRO, a que lidera as pesquisas. A grande surpresa, segundo a maioria das pesquisas, foi o cineasta Pino Solana da Frente Sul (coalizão cuja plataforma é de caráter socialista). O candidato do Acordo Cívico e Social, Alfonso Prat Gay (do partido liderado pela opositora do governo Lilita Carrió), se posicionaria em terceiro lugar para a maioria das pesquisas.

Esta eleição é tomada por vários dos candidatos a legisladores como uma aposta para as eleições para presidentes e governadores de 2011, transcendendo estas aspirações nas principais mídias nacionais. È o caso do atual chefe de governo portenho, Mauricio Macri (que tem aspirações presidenciais), e do candidato Francisco de Narváez (cuja aposta é governar a província de Buenos Aires), e do candidato a senador pela província de Santa Fé, Carlos Reuteman, que se apresenta como um possível candidato presidencial para 2011.

Quanto ao cenário regional, se o governo perder as eleições legislativas, e assim a maioria no Parlamento, o governo poderia ver afetado em alguma medida o apoio das câmaras ao projeto integracionista , através do qual se inclinou em todos seus anos de gestão. Uma situação que poderia ser afetada com as futuras mudanças no governo argentino frente a 2011.

Apesar que, para arriscar um cenário ampliado também será necessário esperar os resultados das eleições presidenciais do Brasil (2010) e do Uruguai (2009). Desde a crise de 2002, que afetou a região e fundamentalmente a Argentina, os governos praticaram fórmulas políticas que visavam a integração nos respectivos países, que se manifestou em um apoio constante e consciente ao projeto do Mercosul e de outros espaços regionais ampliados, como o da Unasul. Trata-se de uma situação que pode variar nos próximos anos de acordo com os giros ideológicos dos 3 países mencionados.

Por outro lado, a Argentina devia ter aproveitado esta eleição nacional para dar um impulso à conscientização da cidadania junto ao projeto de integração. Para isso, teria sido imperiosa a realização de eleições diretas do primeiro grupo de legisladores que deverão integrar o Parlamento do Mercosul, como o fez o Paraguai nas eleições nacionais do ano 2008, situação que teremos de seguir necessariamente em 2011. Nesta data, a Argentina terá de eleger 26 dos 43 parlamentares que lhe correspondem, já que a integração dos novos parlamentares, tanto argentinos como brasileiros, se realizará progressivamente, de tal modo que se complete o número máximo de bancas no ano 2015.

Sem dúvida que a decisão de realizar as eleições diretas dos legisladores do Mercosul haveria significado um importante sinal sobre o projeto de integração ao favorecer a consciência da cidadania da integração, demandada por uma parte da sociedade. Contudo, evidentemente na Argentina estão em jogo outros interesses de caráter mais domésticos que se empenharam em enfrentar duramente os protagonistas desta eleição sem visualizar em muitos dos casos os próprios interesses nacionais e muito menos os regionais. Neste domingo, começaremos a vislumbrar as verdadeiras tendências políticas frente a grande eleição de 2011.

* Professora de Relações Internacionais: Laura Bogado é coordenadora do Centro de Estudos Sul-Americanos da Universidade Nacional de La Plata, Argentina